Tratamento Endodôntico em dentes decíduos: uso da pasta CTZ

Luara Angélica Pereira - Cirurgiã-dentista

O tratamento endodôntico em dentes decíduos e nos permanentes são indicados em casos de pulpite irreversível ou necrose pulpar, resultantes de trauma dental ou por lesões de cárie. (COLI SIEGL et al., 2015) A endodontia visa erradicar microrganismos para restaurar a função dental e evitar infecções. Nesse contexto, a pulpectomia tradicional atinge esses objetivos ao remover completamente o tecido pulpar tanto da porção coronária quando da radicular do dente e, através de um preparo químicomecânico, obtém-se o resultado satisfatório. (LOCATIVA et al., 2012; COLI SIEGL et al., 2015)

Porém, os dentes decíduos apresentam uma complexidade microbiológica e morfológica ainda maior, pois possuem diversas ramificações e canais acessórios. (PIVA et al., 2008; BRUNO, et al., 2006) Outro ponto importante é o comportamento da criança e o tempo em que elas coperam para a realização do atendimento de forma eficaz. Sendo assim, uma alternativa citada na literatura para o tratamento endodôntico em dentes decíduos, é a utilização da pasta CTZ, na qual não se faz necessária a instrumentação dos canais radiculares. (BRUNO, et al., 2006; MOURA et al., 2018; LINDOSO et al., 2021)

A pasta CTZ é composta por agentes antibióticos e antimicrobianos: Cloranfenicol (antibiótico), Tetraciclina (antibiótico) e Óxido de Zinco (antibacteriano), que são manipulados juntamente com o Eugenol, que garante uma ação analgésica, resultando em uma mistura eficaz. (COLI SIEGL et al., 2015)

As pastas endodônticas utilizadas em obturação dos canais radiculares em dentes decíduos devem ser reabsorvíveis, por conta do processo de esfoliação que estes dentes passam. A pasta CTZ foi citada por Cappiello e Soller, há mais de 50 anos, com o principal objetivo de tornar a realização da pulpectomia mais simples, por conta da diminuição dos passos do tratamento, já que com o seu uso não há necessidade de instrumentação dos canais radiculares. (BRUNO, et al., 2006)

Podemos citar como vantagens um menor tempo de trabalho, o que facilita o tratamento em crianças com pouco grau de colaboração ou com pouca idade. Além disso, há eficácia comprovada na redução de abscessos e infecções e, consequentemente, elimina a dor. A pasta CTZ apresenta um baixo custo, possibilitando o seu uso nos serviços públicos e privados. A sua aplicação no serviço público pode evitar a extração precoce dos dentes decíduos, por falta de capacitação profissional ou ausência de materiais específicos. (COLI SIEGL et al., 2015; LINDOSO et al., 2021) Como desvantagens, o uso da pasta CTZ pode ocasionar alteração de cor no dente decíduo por conta da presença da tetraciclina em sua composição. Outro ponto negativo é a falta de evidência científica robusta sobre esse material. (LINDOSO et al., 2021)

A pasta CTZ apresenta resultados mais relevantes quando aplicadas em dentes com pulpas necrosas. Seu uso provoca redução da lesão clínica e radiograficamente, além de redução da mobilidade patológica. (BRUNO, et al., 2006; LINDOSO et al., 2021)

Quanto a sua apresentação, a pasta CTZ é uma mistura em pó dos componentes, geralmente manipulada em farmácias de manipulação, através da solicitação do dentista. Essa mistura já é feita com as proporções corretas: 2 partes de Óxido de Zinco, para 1 de Tetraciclina e 1 de Cloranfenicol. O Eugenol é adicionado no momento do uso, como veículo de mistura para a utilização. A consistência da pasta deve ser semelhante a de um dentifrício comum, mas não há uma proporção exata entre pó e líquido. (LINDOSO et al., 2021)

Ainda é possível encontrar algumas divergências nos protocolos disponíveis na literatura, principalmente no que diz respeito ao tipo de isolamento e formas de irrigação. O uso dessa técnica pode variar de acordo com a experiência do profissional. Um exemplo de protocolo utilizado é o citado por Imparato et al. (2017): 1. Radiografia Inicial; 2. Anestesia e isolamento do campo operatório; 3. Remoção dos tecidos necrosados com colheres de dentina e/ou brocas de baixa rotação e limpeza da cavidade com solução
salina; 4. Remoção do teto da câmara pulpar e de restos pulpares. Lavagem da câmara pulpar com solução salina; 5. Localização e desobstrução dos canais radiculares; 6. Limpeza final da câmara coronária com solução salina e secagem com bolinhas de algodão estéreis; 7. Preparo da pasta CTZ: manipulação do pó da pasta CTZ com eugenol; 8. Inserção da pasta CTZ e pressão leve com bolinhas de algodão; 9. Proteção da pasta CTZ com camada fina de guta-percha em bastão. A guta-percha deve ser colocada
levemente aquecida e acondicionada no assoalho da câmara pulpar e entrada dos canais radiculares delicadamente com um condensador de amálgama; 10. Restauração; 11. Radiografia final.

A aplicação da pasta CTZ tem se mostrado eficaz e vantajoso. Ainda são necessárias mais evidências científicas de alta nível sobre o seu uso, porém está sendo utilizada há muitos anos por odontopediatras e clínicos experientes e já apresentou resultados satisfatórios em diversos estudos. (COLI SIEGL et al., 2015) Portanto, o uso da pasta CTZ é apropriado para dentes com necrose pulpar, incluindo aqueles com fístulas e abscessos, oferecendo a vantagem de reduzir o número de etapas, o que é especialmente benéfico para crianças que apresentam dificuldades de comportamento e cooperação. Além disso, esse método previne a extração de dentes decíduos, restaurando todas as suas funções e erradicando a infecção. Embora exija menos etapas e materiais, é crucial que o diagnóstico seja preciso, o procedimento seja executado com cuidado e o dente seja selado com uma restauração de alta qualidade para garantir a durabilidade dos resultados. (LINDOSO et al., 2021)

Conteudista: Luara Angélica Borges Pereira
Cirurgiã-Dentista – EBMSP. Especialista em Odontopediatria – ABO/Ba. Mestranda em Odontologia e Saúde – UFBA. Professora das disciplinas de Odontopediatria da EBMSP e UNIFTC

Referências
BRUNO, Glaucenira et al. Avaliações hematológicas e bioquímicas do sangue de cães
submetidos a pulpotomias com cimento de antibiótico. Revista de Odontologia da
UNESP, Juazeiro do Norte, v. 35, n. 3, p. 125-133, 2006.

COLI SIEGL, Regina; LENZI, Tathiane; POLITANO, Gabriel. Two endodontics
techniques analysis in primary molars with fistula. Rev Gaúch Odontol, Porto Alegre,
v.63, n.2, p. 187-194, abr./jun., 2015.

Imparato, J. C. P. et al. (2017). Odontopediatria Clínica: Integrada e atual. 1a. ed. Nova
Odessa – SP – Brasil: Editora Napoleão (3).

LINDOSO, Thirza et al., A empregabilidade da pasta CTZ no tratamento endodôntico
da dentição decídua: uma revisão bibliográfica. Research, Society and Development, v.
10, n. 17, p 1-10, dez. 2021.

LOCATIVA, Andréa; LOYOLA, Adriano; SOUSA, Cassio. Histological Evaluation of
Bone Response to Pediatric Endodontic Pastes: An Experimental Study in Guinea Pig.

Braz Dent J, Minas Gerai, v. 23, n. 6, p. 635-644, 2012.

MOURA, Lúcia et al. Cellular profile of primary molars with pulp necrosis after
treatment with antibiotic paste. International Journal of Experimental Pathology, v.99,
p. 264-268, ago. 2018.

PIVA, Fabiane; JUNIOR, Italo; ESTRELA, Carlos. Antimicrobial Activity of Different
Root Canal Filling Pastes Used in Deciduous Teeth. Materials Research, Goiânia, v. 11,
n. 2, p. 171-173, abr. 2008.

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