Saúde bucal, diabetes e hipertensão: uma conexão que transforma o cuidado na Atenção Primária

O atual perfil epidemiológico brasileiro, marcado pelo envelhecimento populacional, evidencia o crescimento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs). Dados do Vigitel (2023) apontam que a hipertensão arterial atinge 27,9% dos adultos, enquanto o diabetes mellitus afeta 10,2% da população1. O cenário é agravado pelo posicionamento do Brasil como 6º país com mais diabéticos no mundo e pelo alto índice de subdiagnóstico2, exigindo uma abordagem interprofissional robusta diante da frequente coexistência dessas condições.

A intersecção dessas duas patologias é o ponto de maior vulnerabilidade. A hipertensão é cerca de duas vezes mais frequente em pacientes diabéticos do que na população geral, compondo o quadro da síndrome metabólica. A presença simultânea de hipertensão e diabetes multiplica exponencialmente o risco de desfechos cardiovasculares fatais e não fatais, como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular encefálico, além de acelerar a progressão da nefropatia e retinopatia.

A saúde bucal como peça-chave nesse processo

A relação entre saúde bucal e as doenças sistêmicas fundamenta-se na inflamação crônica. A periodontite atua como foco infeccioso, disseminando mediadores inflamatórios (IL-1, IL-6, TNF-α) e bactérias para a circulação, o que eleva a produção hepática de Proteína C-Reativa. No diabetes, essa relação é bidirecional: a hiperglicemia piora o quadro periodontal, enquanto o aumento de citocinas inflamatórias, como o TNF-α, contribui para a resistência à insulina. Já na hipertensão, patógenos periodontais como Porphyromonas gingivalis têm sido associados à disfunção endotelial e à redução da disponibilidade de óxido nítrico, favorecendo rigidez vascular e maior risco cardiovascular.

Além dos mecanismos diretos, deve-se considerar os fatores de risco comuns. Doenças bucais e DCNTs compartilham determinantes sociais e comportamentais, como tabagismo, estresse, obesidade, inatividade física e dieta rica em carboidratos refinados. Portanto, a persistência de uma condição bucal precária não sinaliza apenas uma infecção local, mas serve como um marcador de risco para a saúde
geral, indicando a necessidade de uma abordagem terapêutica integrada que vise a redução da carga inflamatória total do indivíduo.

Manifestações bucais em diabéticos e hipertensos

O monitoramento da saúde bucal em pacientes diabéticos e hipertensos é de grande importância na Atenção Primária, visto que as repercussões do estado sistêmico nos tecidos orais são diretas e multifacetadas. Nos tecidos moles e mucosa, observa-se alta prevalência de doença periodontal, cuja severidade encontra-se intimamente ligada ao controle glicêmico, além de uma maior suscetibilidade a infecções oportunistas, como a candidíase, e a distúrbios neurossensoriais como a síndrome da ardência bucal e hipogeusia. Simultaneamente, a homeostase bucal pode ser afetada pela hipossalivação de origem multifatorial, decorrente de neuropatia diabética, poliúria ou efeitos adversos de anti-hipertensivos. A escassez de saliva, associada à presença de glicose no fluido bucal, colapsa as defesas naturais do esmalte, resultando em um aumento expressivo na incidência de cáries radiculares e cervicais. Diante desse cenário, o manejo clínico exige a implementação de protocolos que visem compensar a xerostomia e remineralizar a estrutura dental vulnerável.

O papel estratégico do cirurgião-dentista

Entre os cuidados odontológicos, o tratamento periodontal consolida-se como uma intervenção adjuvante estratégica para o controle das DCNTs. Evidências apontam que a adequação do meio bucal reduz a inflamação sistêmica, resultando na diminuição da Hemoglobina Glicada (HbA1c) em diabéticos e na melhora da função endotelial em hipertensos10. Além disso, o acolhimento humanizado e a eliminação de focos de dor pelo cirurgião-dentista evitam descompensações agudas, qualificando o cuidado integral e reduzindo a demanda por atendimentos de urgência na rede.
A prevenção é uma estratégia de fundamental importância e efetividade, exigindo protocolos intensivos para esses grupos. A conduta baseia-se em três pilares: monitoramento frequente para controle do biofilme, educação em saúde sobre a relação entre a condição bucal e as doenças sistêmicas, e o combate a fatores de risco comuns, como tabagismo, uso nocivo de álcool e dieta não saudável.

Para nortear essa atuação multiprofissional, o Ministério da Saúde disponibiliza materiais fundamentais que validam a prática integrativa. O Caderno de Atenção Básica nº 36 traz um capítulo exclusivo sobre “Saúde Bucal e Diabetes Mellitus”, oferecendo recomendações para o trabalho das equipes e orientações clínicas para o cirurgião-dentista visando o manejo seguro12. De igual relevância, o Caderno nº 37 inclui diretrizes sobre “Saúde Bucal e Hipertensão Arterial Sistêmica”, instruindo sobre protocolos de atendimento na rede. A adesão a essas diretrizes garante a padronização do cuidado e a segurança do paciente crônico dentro da Unidade Básica de Saúde. Dessa forma, a intervenção conduzida pelo cirurgião-dentista consolida o atendimento odontológico como um pilar do tratamento multidisciplinar, estabelecendo o cuidado bucal como um pré-requisito indispensável para o sucesso do manejo clínico do diabetes e da hipertensão.

REFERÊNCIAS

1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2023. Brasília: Ministério da Saúde; 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigitel/vigitel-brasil-2023-vigilancia-de-fatores-de-risco-e-protecao-para-doencas-cronicas-por-inquerito-telefonico.

2. INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION (IDF). IDF Diabetes Atlas. 10th ed. Brussels: International Diabetes Federation; 2021. Disponível em: https://diabetesatlas.org/.

3. BARROSO, Weimar Kunz Sebba et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658. Disponível em: http://departamentos.cardiol.br/sbc-dha/profissional/pdf/Diretriz-HAS-2020.pdf.

4. YAMADA, Soichiro; OZAWA, Gakyu; YOSHIMURA, Atsushi. The bidirectional association between diabetes and periodontitis, from basic to clinical. Int J Mol
Sci. 2023 Dec;24(24):17445. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38098853/.

5. MUÑOZ AGUILERA, Eva et al. Association Between Periodontitis and Blood Pressure Highlighted in Systemically Healthy Individuals: Results From a Nested Case-Control Study. Hypertension. 2021 May;77(5):1765–1774. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/HYPERTENSIONAHA.120.16790.

6. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global oral health status report: towards universal health coverage for oral health by 2030. Geneva: World Health Organization; 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240061484.

7. MAURI-OBRADORS, Enric et al. Oral manifestations of Diabetes Mellitus: a systematic review. Med Oral Patol Oral Cir Bucal. 2017 Sep;22(5):e586-e594. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28809366/.

8. HASEGAWA, Y. et al. Characteristics of medication-induced xerostomia and effect of treatment. PLoS One. 2023 Jan;18(1):e0280224. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36634078/.

9. WANG, Y. et al. Prevalence of xerostomia in patients with type 2 diabetes mellitus: a systematic review and meta-analysis. BMC Oral Health. 2025;25. DOI: 10.1186/s12903-025-05992-6. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12042386/.

10. SIMPSON, Tatjana C. et al. Treatment of periodontitis for glycaemic control in people with diabetes mellitus. Cochrane Database Syst Rev. 2022 Abr;(4):CD004714. DOI: 10.1002/14651858.CD004714.pub4. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35420698/.

11. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Estratégias e Políticas de Saúde Comunitária. Passo a passo das ações da Política Nacional de Saúde Bucal. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/passo_acoes_politica_nacional_saudebucal.pdf.

12. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. 160 p.
(Cadernos de Atenção Básica, n. 36). ISBN 978-85-334-2059-5. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/pdf/caderno_atencaobasica36.pdf/view

13. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: hipertensão arterial sistêmica. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. 128 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 37). ISBN 978-85-334-2058-8. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/hipertensao_arterial_sistemica_cab37.pdf.

MINI CURRÍCULO

Ramilly Santos Silva – Cirurgiã-Dentista graduada pela Universidade Estadual de Feira de Santana; Pós-graduanda em Ortodontia pela Associação Brasileira de Odontologia (Seção Bahia); Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Odontologia e Saúde da Universidade Federal da Bahia; Integrante do Ciclo de Estudos e Pesquisa Epidemiológica em Saúde Bucal da Faculdade de Odontologia da UFBA.

Gabriel Teixeira da Silva – Cirurgião-Dentista graduado pela Universidade Federal da Bahia; Mestrando em diagnóstico oral pela UFBA; Pós-graduando em Patologia Oral e Maxilofacial.

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