Quando rastrear o risco de fibrose associada à doença hepática esteatótica metabólica em adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2?

As Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes destacam que a doença hepática esteatótica metabólica (DHEM) é a doença mais comum do fígado, afetando 30% da população mundial. Compreende um espectro de manifestações hepáticas associadas a distúrbios metabólicos e cardiovasculares, como obesidade e/ou distribuição desfavorável de gordura, resistência à insulina, hipertensão arterial, dislipidemia e diabetes tipo 2 (DM2).A associação entre DHEM e doença cardiovascular está bem estabelecida, constituindo a principal causa de morbimortalidade na população com DHEM.

 A DHEM é caracterizada pelo aumento do conteúdo de gordura no fígado (ultrapassando 5% do parênquima hepático) e pode ser classificada como esteatose (quando há apenas excesso de gordura no fígado, com mínima inflamação) ou esteato-hepatite (quando há inflamação lobular e balonização de hepatócitos, com ou sem fibrose).Pessoas com esteato-hepatite podem evoluir com diferentes graus de fibrose, progredir para cirrose (5%) e apresentar complicações como hipertensão portal ou carcinoma hepatocelular. Entre os que desenvolvem cirrose, o risco de hepatocarcinoma é estimado entre 5% e 30%.

O rastreio para avaliação do risco de fibrose avançada associada à DHEM, inicialmente com escores laboratoriais clínicos como o Fibrosis-4 (FIB-4), é recomendado em todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2.O FIB-4 é um índice não invasivo calculado a partir da idade, plaquetas e transaminases (AST/TGO e ALT/TGP) para estimar o risco de fibrose avançada ou cirrose no fígadoem adultos com 35 anos ou mais.Naqueles com FIB-4 ≥ 1,3 (sugerindo risco indeterminado ou alto de fibrose avançada), é recomendado a investigação adicional com elastografia transitória. Nas pessoas com idade >=65 anos deve ser considerado um FIB-4 >=2 para ser considerado comrisco indeterminado ou alto de fibrose avançada.

 

Rastreio e manejo da DHEM em pessoas com pré-diabetes ou diabetes tipo 2). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024). DO, ISBN: 978-65-272-0704-7.

A modificação do estilo de vida com foco na redução do peso corporal ≥ 5% é recomendada como primeira escolha para o tratamento da DHEM em pessoas com pré-diabetes ou diabetes tipo 2. Quando a modificação do estilo de vida for insuficiente para atingir a meta de perda de peso, o uso de medicamentosantiobesidade é recomendado em pessoas com diabetes tipo 2, DHEM e índice de massa corporal ≥ 27kg/m².

A combinação de agentes antidiabéticos com benefícios comprovados na DHEM pode ser considerada no tratamento de esteato-hepatite e/ou fibrose em pessoas com diabetes tipo 2. É importante destacar que a metformina não está associada a benefícios específicos relacionados à DHEM. A metformina não leva à melhora nos parâmetros inflamatórios, radiológicos e histológicos relacionados à DHEM, apesar de promover redução de peso e da hemoglobina A1c.

A pioglitazonae os agonistas do receptor do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (AR GLP-1), como a semaglutida, são recomendados como tratamento de primeira linha para esteato-hepatite e/ou fibrose em pessoas com diabetes tipo 2. Os inibidores do cotransportador-2 de sódio-glicose (SGLT2), como a dapagliflozina, podem ser considerados para este tratamento. 

Em pessoas com diabetes tipo 2, DHEM e índice de massa corporal ≥ 35 kg/m², a cirurgia bariátrica deve ser considerada se a combinação de modificação do estilo de vida e farmacoterapia não tiver se mostrado eficaz para melhorar a DHEM.

Texto compilado por:

Débora Angeli

Cremeb 9582/RQE 9857

Endocrinologista CEDEBA

Referências Bibliográficas:

Silva Júnior WS, Valério CM, Araujo-Neto JM, Godoy-Matos AF, Bertoluci M. Doença hepática esteatótica metabólica (DHEM). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024). DO, ISBN: 978-65-272-0704-7.

https://liver.org.au/health-professionals/fib-4-calculator/
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