Qual medicação utilizar nos casos de pulpotomia em dentes decíduos?

Ludmilla Bacelar – Cirurgiã-dentista (UFBA), mestre e doutoranda em Odontologia e Saúde (UFBA), especialista em Endodontia e Saúde pública com ênfase em saúde da família e professora em graduação e pós graduação.

A pulpotomia em dentes decíduos é um procedimento amplamente estudado, apresentando um número expressivo de revisões sistemáticas e meta-análises publicadas na última década. A literatura permite a comparação de diferentes medicações utilizadas no tratamento conservador em dentes decíduos, fornecendo um nível elevado de evidência para a tomada de decisão clínica (Bossù et al., 2021; Tewari et al., 2022; Guo et al., 2022). Esses estudos analisam materiais tradicionais, como formocresol, sulfato férrico e hidróxido de cálcio, assim como materiais mais recentemente introduzidos na prática da pulpotomia à base de silicato de cálcio, como o Mineral Trioxide Aggregate (MTA) e o Biodentine (Bossù et al., 2021; Guo et al., 2022). 

Os resultados demonstram que o MTA e o Biodentine apresentam maiores taxas de sucesso clínico e radiográfico em comparação com os materiais tradicionais, fato atribuído principalmente à maior biocompatibilidade e ao desempenho biológico superior desses materiais (Bossù et al., 2021; Tewari et al., 2022; Guo et al., 2022). O formocresol, apesar de apresentar sucesso clínico aceitável, vem sendo progressivamente questionado devido ao seu potencial de induzir resposta inflamatória e irritabilidade aos tecidos vivos (Bossù et al., 2021; Tewari et al., 2022). A literatura o descreve como um agente devitalizante, que atua por fixação tecidual e não promove reparo pulpar verdadeiro (Bossù et al., 2021).  

O hidróxido de cálcio, embora amplamente utilizado na Endodontia em função de seu alto pH e potencial de indução de tecido mineralizado especialmente em dentes permanentes, apresenta desempenho clínico inferior quando empregado em dentes decíduos, com elevada incidência de falhas e reabsorção interna, não sendo recomendado para pulpotomia nessa dentição (Bossù et al., 2021; Tewari et al., 2022; Guo et al., 2022). Esse comportamento é atribuído à alta solubilidade do material, ao vedamento inadequado, ao estímulo à reabsorção interna patológica e à formação de um tecido reparador inconsistente ou inadequado na polpa radicular (Bossù et al., 2021; Guo et al., 2022). 

Como materiais alternativos ao formocresol e ao hidróxido de cálcio, o Mineral Trioxide Aggregate (MTA) tem se destacado na pulpotomia em dentes decíduos devido ao excelente selamento marginal e às elevadas taxas de sucesso clínico e radiográfico; no entanto, apresenta limitações, dentre elas o tempo de presa prolongado, a possibilidade de escurecimento dentário e o custo elevado (Bossù et al., 2021; Tewari et al., 2022; Guo et al., 2022). 

 De forma semelhante ao MTA, o Biodentine também se destaca nesse tipo de procedimento em razão de suas propriedades biológicas favoráveis, apresentando, contudo, vantagens operatórias importantes, como tempo de presa mais rápido e menor risco de escurecimento dentário, o que pode representar benefício clínico em determinadas situações (Bossù et al., 2021; Guo et al., 2022). Ambos os materiais promovem a manutenção da vitalidade pulpar radicular, a indução de tecido mineralizado e o controle da resposta inflamatória, estando alinhados com os princípios atuais da terapia pulpar vital na dentição decídua (Bossù et al., 2021; Tewari et al., 2022).  

Ensaios clínicos randomizados reforçam os achados das revisões sistemáticas; como em um estudo que comparou o uso do formocresol, cimento Portland e NeoMTA Plus em pulpotomias de molares decíduos demonstrando taxas de sucesso clínico e radiográfico semelhantes entre os grupos, porém os materiais à base de silicato de cálcio apresentaram melhor comportamento biológico e menor potencial de agressão pulpar. (Gisour et al., 2024) 

Com base nas evidências disponíveis, a seleção do material para pulpotomia em dentes decíduos não se restringe à análise das taxas de sucesso; critérios biológicos, clínicos e operacionais devem ser considerados. Dentre eles, o controle da hemostasia, o tempo de presa, custo e a aplicabilidade no contexto dos serviços públicos da saúde. Nesse contexto, materiais que apresentam facilidade de manipulação, menor tempo de presa e menor sensibilidade técnica tendem a oferecer melhores resultados em ambientes de atendimento com alta demanda e tempo clínico limitado, como na Atenção Primária. Apesar do custo inicial desses materiais, é necessário considerar o impacto da escolha do material na necessidade de novas intervenções e ocorrência de insucessos, impactando no aumento dos custos à médio e longo prazo. (Coll et al., 2017; AAPD, 2020) 

Em suma, a pulpotomia em dentes decíduos é considerada um procedimento seguro e eficaz quando bem indicada e executada. No contexto da Atenção Primária à Saúde, é válido priorizar a previsibilidade clínica e facilidade de execução, no entanto deve-se considerar também os critérios biológicos do material. Na ausência de materiais bioativos, como o MTA e o Biodentine, o formocresol ainda é preferível ao hidróxido de cálcio. (AAPD, 2020) Tomadas de decisões clínicas baseadas em evidências contribuem para maior resolutividade e qualidade do cuidado odontológico no Sistema Único de Saúde.  

Referências 

Bossù M et al. Different pulp dressing materials for the pulpotomy of primary teeth: A systematic review of the literature. Journal of Clinical Medicine, 2021. 

Tewari N et al. Success of medicaments and techniques for pulpotomy of primary teeth: An overview of systematic reviews. International Journal of Paediatric Dentistry, 2022. 

Guo J, Zhang N, Cheng Y. Comparative efficacy of medicaments or techniques for pulpotomy of primary molars: A network meta-analysis. Journal of Dentistry, 2022. 

Gisour EF, Jahanimoghadam F, Karimipour P. Clinical and radiographic comparison of primary molar pulpotomy using formocresol, portland cement, and NeoMTA plus: a randomized controlled clinical trial. Scientific Reports. 2024;14(29690). 

Coll JA, Seale NS, Vargas K, Marghalani AA, Al Shamali S, Graham L. 
Primary tooth vital pulp therapy: a systematic review and meta-analysis. 
Pediatric Dentistry. 2017;39(1):16-23. 

American Academy of Pediatric Dentistry. 
Pulp Therapy for Primary and Immature Permanent Teeth. In: The Reference Manual of Pediatric Dentistry. Chicago, IL: American Academy of Pediatric Dentistry; 2025: 487-496 

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