Quais os critérios clínicos e laboratoriais que auxiliam na diferenciação de uma rinite alérgica e uma infecção do trato respiratório viral?

É comum que profissionais de saúde, diante de sinais e sintomas como tosse, dor no corpo e coriza, fiquem em dúvida se estão diante de um quadro de rinite alérgica ou de uma infecção do trato respiratório causada por vírus ou bactérias.

A rinite alérgica é uma condição inflamatória crônica da mucosa nasal, mediada por IgE, desencadeada pela exposição a alérgenos ambientais. Muitas vezes, seus sintomas se sobrepõem aos das infecções respiratórias virais, como influenza e resfriado comum. Em períodos de mudanças bruscas de temperatura, como durante o São João — com clima mais frio, maior exposição a sensibilizadores (fogos de artifício, fumaça) e aumento da circulação de turistas —, a diferenciação diagnóstica torna-se ainda mais desafiadora, especialmente em momentos de alta circulação viral (BACHERT, Claus et al., 2021).

Os principais sintomas que favorecem o diagnóstico de rinite alérgica incluem: prurido nasal, espirros em salva, rinorreia clara e obstrução nasal recorrente, geralmente sem febre ou mal-estar generalizado. Já nas infecções do trato respiratório, os sintomas podem ser semelhantes, porém costumam incluir febre, cefaleia e mialgia, que, em geral, têm curta duração.

O diagnóstico é essencialmente clínico. No entanto, alguns exames complementares podem auxiliar na diferenciação diagnóstica, como a identificação de eosinofilia (por swab nasal ou hemograma completo) e testes específicos de IgE, que ajudam a confirmar o caráter alérgico do quadro.

De acordo com as Diretrizes do V Consenso Brasileiro de Rinite Alérgica (SOLÉ, Dirceu et al., 2024), o manejo da doença baseia-se em três pilares fundamentais: controle ambiental, farmacoterapia e imunoterapia.

  • Entre as medidas ambientais, recomenda-se:
  • Minimizar a exposição a alérgenos domésticos;
  • Evitar o uso de vassouras, priorizando aspiradores de pó e panos úmidos na limpeza;
  • Reduzir o contato com animais de estimação que soltam pelos (como cães e gatos);
  • Evitar ambientes úmidos, abafados e com pouca ventilação.

No tratamento farmacológico, os corticoides intranasais, como o furoato de fluticasona, são considerados padrão-ouro para os sintomas nasais, com impacto direto na qualidade de vida. Anti-histamínicos orais de segunda geração, como a loratadina, auxiliam no controle de prurido, espirros, rinorreia e tosse irritativa. Os antileucotrienos, como o montelucaste, são indicados principalmente para pacientes com comorbidades respiratórias, como a asma. Em casos moderados a graves, pode-se considerar a combinação intranasal de corticosteroide com anti-histamínico.

Pacientes com sintomas persistentes e moderados a graves, com sensibilização comprovada, podem se beneficiar da imunoterapia alérgeno-específica (subcutânea ou sublingual), a única estratégia capaz de modificar a história natural da doença. Em casos graves, também pode-se considerar o uso de imunobiológicos, como o omalizumabe e o dupilumabe.

Para o acompanhamento clínico e avaliação da resposta terapêutica, podem ser utilizadas escalas como EVA, RCAT e CARAT, que permitem ajustes individualizados no tratamento (SOLÉ, Dirceu et al., 2024).

É fundamental compreender o paciente em sua totalidade e respeitar suas particularidades na prescrição terapêutica. A abordagem multidisciplinar contribui para um melhor controle dos sintomas e, consequentemente, para uma melhora significativa na qualidade de vida. 

Conteudista: Carolina Torres Almeida, residente do segundo ano do Programa da Fundação Estatal de Saúde da Família FESF, de Medicina de Família e Comunidade. 

Referências Bibliográficas:

BACHERT, Claus; PAWLUK, Lukasz; DELIUS, Julia. Differential diagnosis of rhinitis: a review of clinical and diagnostic features. Allergy, v. 76, n. 11, p. 3151–3162, 2021. DOI: https://doi.org/10.1111/all.14854.

GUSSO, G. & LOPES. J.M.C (Orgs). Tratado de Medicina de Família e Comunidade. Artmed, 2012.

SOLÉ, Dirceu; KUSCHNIR, Fábio Chigres; MELLO JÚNIOR, João Ferreira de. V Consenso Brasileiro sobre Rinites: diretrizes de manejo, Boletim ASBAI, n. 94, p. 1–70, out. 2024.

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