Pré-natal odontológico

Alice Araujo – cirurgiã-dentista

A gestação corresponde a um período de diversas transformações fisiológicas e a necessidade de adaptação à estas (ECHEVERRIA, 2014). Durante esse período, a mulher se encontra mais suscetível a buscar novos conhecimentos relacionados tanto à sua saúde quanto à saúde de seu bebê (NAKAMA; HIGASI, 2011). No entanto, a existência de crenças populares negativas e a desinformação sobre o tratamento odontológico ocasiona na ausência de motivação para buscar este serviço e iniciar o pré-natal odontológico. Portanto, é essencial que no atendimento seja ensinado sobre prevenção e tratamento de agravos, como cárie, doenças periodontais, lesões e outros que podem surgir (MOIMAZ; SALIBA; GARBIN; ZINA; MOSCARDINI, 2006).

Durante a gravidez, diversas mudanças ocorrem no corpo e na cavidade oral, sendo as alterações gastrointestinais algumas das mais significativas. Essas alterações, desencadeadas tanto pelo crescimento fetal quanto pelas variações hormonais, são responsáveis por sintomas como náuseas, azia e vômitos (KURIEN; KATTIMANI; SRIRAM, 2013). As náuseas e os episódios de êmese, especialmente matinais, podem causar desmineralização e erosão ácida dos dentes, com maior incidência nas superfícies palatinas. Diante desse quadro, é fundamental que o cirurgião-dentista oriente a gestante a realizar bochechos com uma solução de bicarbonato de sódio, a fim de neutralizar a acidez bucal e prevenir danos ao esmalte dentário (HEMALATHA et al., 2013). 

Dentre as alterações na cavidade oral no período gestacional, está a xerostomia, conhecida pela sensação de boca seca. A qual também pode estar relacionada à alteração hormonal e é imprescindível o estímulo ao consumo de água e goma-de-mascar sem açúcar, para estimular a salivação e o alívio do ressecamento (NEVILLE, 2016).

A gengivite é uma condição que tende a ocorrer com maior frequência durante a gestação, devido aos níveis elevados de estrogênio e progesterona. Esses hormônios aumentam a permeabilidade vascular da gengiva, o que intensifica a resposta inflamatória frente a agentes irritantes locais, como a placa bacteriana (REIS et al., 2010). Essa resposta exacerbada pode, ainda, favorecer o desenvolvimento de lesões específicas da gravidez, como o granuloma gravídico (JAFARZADEH; SANATKHANI; MOHTASHAM, 2006).

Os microrganismos associados à doença periodontal apresentam número elevado no terceiro ou quarto mês de gestação e utilizam os hormônios presentes no fluido gengival como fontes de alimento. Com o periodonto inflamado, há liberação de citocinas pró-inflamatórias que podem estimular a contração uterina e induzir parto prematuro ou o nascimento de crianças com baixo peso (RIBEIRO, 2007). Vale ressaltar que a gestação não causa a doença periodontal (RUIZ, 2016).

A maior incidência de cárie no período gestacional, se deve à menor ingestão de alimentos cariogênicos, mas em maior frequência e associada ao descuido com higiene oral, visto que a cárie é uma doença multifatorial (RUIZ, 2016). Como forma de prevenção, é importante que o profissional oriente quanto a mudança de hábitos alimentares, diminuindo a ingesta de alimento cariogênicos e a higienização oral (VASCONCELOS, 2012).

O atendimento odontológico da gestante pode ser realizado durante os três trimestres, sendo o mais recomendado o segundo, pois a organogênese fetal foi concluída, há menor incidência de náuseas e maior conforto para gestante na cadeira odontológica, em comparação ao terceiro. No primeiro trimestre, há uma maior probabilidade de complicações, aborto e teratogenicidade, em virtude do desenvolvimento do bebê. Já no terceiro trimestre, é considerado o mais seguro, provoca grande desconforto à gestante, devido ao maior peso fetal (ECHEVERRIA, 2014).

O Ministério da Saúde recomenda que toda gestante deve realizar, no mínimo, uma consulta odontológica durante o período do pré-natal (BRASIL,2017), sendo o ideal a realização de uma consulta por trimestre (POSSOBON; MIALHE, 2009). Nesse contexto, a Caderneta da Gestante, na qual é possível inserir dados do atendimento odontológico, se torna um instrumento essencial de comunicação do cirurgião-dentista com os demais profissionais da saúde, como médicos, enfermeiros e agentes comunitário de saúde e garante um acompanhamento integrado (BRASIL, 2017).

Ademais, torna-se evidente a importância do acompanhamento odontológico como parte integrante do pré-natal. A vulnerabilidade da gestante frente a problemas como erosão ácida, gengivite, doença periodontal, cárie e xerostomia associados às alterações hormonais, revelam a necessidade de ações educativas e preventivas por parte do dentista. Haja vista, outro aspecto importante é o combate a desinformação, com a finalidade de garantir o acesso ao cuidado integral. Destarte, o pré-natal odontológico é fundamental para a promoção integral da saúde da gestante.

Conteudista: Alice Soares Araujo – Cirurgiã- Dentista graduada pela Faculdade Unime – Lauro de Freitas. Residente Multiprofissional em Saúde da Família pela FESF-SUS

REFERÊNCIAS: 

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BOTELHO, D. L. L.; LIMA, V. G. A.; BARROS, M. M. A. F.; ALMEIDA, J. R. de S. ODONTOLOGIA E GESTAÇÃO: A IMPORTÂNCIA DO PRÉ-NATAL ODONTOLÓGICO. SANARE – Revista de Políticas Públicas, [S. l.], v. 18, n. 2, 2020. DOI: 10.36925/sanare.v18i2.1376. Disponível em: https://sanare.emnuvens.com.br/sanare/article/view/1376

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Política nacional de Humanização da atenção e Gestão do SUS. Clínica ampliada e compartilhada. Brasília, DF: Ministério da saúde, 2009. 64 p. (Série B. Textos Básicos de Saúde). Disponível em: <http:// bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/clinica_ampliada_compartilhada.Pdf>.

CODATA, L. A. B.; NAKAMA, L.; CORDONI JÚNIOR, L.; HIGASI, M. S. Atenção odontológica à gestante: papel dos profissionais de saúde. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 10, p. 4111-4118, 2011.

DO CARMO, Weder Dias. A importância do pré-natal odontológico. Revista Cathedral, v. 2, n. 3, p. 145-156, 2020. Disponível em: http://cathedral.ojs.galoa.com.br/index.php/cathedral/article/view/198 

ECHEVERRIA, Sandra; TILLITPOLITANO, Gabriel. Tratamento odontológico para gestante. 2. Ed. São Paulo: Santos, 2014.

HEMALATHA, V. T.; MANIGANDAN, T.; SARUMATHI, T.; AARTHI, N. V.; AMUDHAN, A. Dental considerations in Pregnancy – A critical review on the oral Care. Journal of Clinical and Diagnostic Research, v. 7, n. 5, p. 948-953, 2013.

JAFARZADEH, H.; SANATKHANI, M.; MOHTASHAM, N. Oral pyogenic Granuloma: a review. Journal of Oral Science, v. 48, n. 4, p. 167-175, 2006.

KURIEN, S.; KATTIMANI, V. S.; SRIRAM, R. R.; SRIRAM, S. K.; PRABHAKAR, R. V. K.; BHUPATHI, A. et al. Management of Pregnant patient in dentistry. Journal of International Oral Health, v. 5, n. 1, p. 88-97, 2013.

MIGUEL, Amanda José dos Santos et al. Importância do pré-natal odontológico para o diagnóstico de alterações bucais em gestantes. Ciência Atual–Revista Científica Multidisciplinar do Centro Universitário São José, v. 13, n. 1, 2019. Disponível em: https://revista.saojose.br/index.php/cafsj/article/view/364 

MOIMAZ, S. A. S.; GARBIN, C. A. S.; ROCHA, N. B.; SANTOS, S. M. G.; SALIBA, N. A. Resultados de dez anos do programa de atenção odontológica à gestante. Revista Ciência Extensão, v. 7, n.1, 2011.

NEVILLE, B. W. et al. Patologia oral e Maxilofacial. 4. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier,

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POSSOBON, R. F., MIALHE, F. L. Saúde Bucal da Gestante e da criança: Atuação preventiva. In: PEREIRA, A.C. Tratado De Saúde Coletiva em Odontologia. Nova Odessa: Napoleão, 2009.

REIS, D. M.; PITTA, D. R.; FERREIRA, H. M. B.; JESUS, M. C. P.; MORAES, M. R. L.; SOARES, M. G. Educação em saúde como estratégia de promoção de saúde bucal em gestantes. Ciência & Saúde Coletiva, v. 15, n. 1, p. 269-276, 2010.

RIBEIRO, M. S. P. C. Lesões bucais em gestantes e sua relação com aspectos biossociais no município de Feira de Santana – BA. 2007. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, 2007.

RUIZ, D. R. et al. Guia de saúde oral materno-Infantil. 2016.

VASCONCELOS, R. G.; VASCONCELOS, M. G.; MAFRA, R. P.; ALVES JÚNIOR, L. C.; QUEIROZ, L. M. G.; BARBOZA, C. A. G. Atendimento odontológico a pacientes gestantes: como proceder com segurança. Revista Brasileira de Odontologia, v. 69, n. 1, p. 120-124, 2012.

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