O que é matriciamento e como ele pode auxiliar no cuidado em saúde mental na Atenção Básica? 

O matriciamento ou apoio matricial é uma forma inovadora de produzir saúde baseada na construção compartilhada entre duas ou mais equipes, que desenvolvem conjuntamente uma proposta de intervenção pedagógico-terapêutica (CAMPOS, 1999). Esse modelo tem orientado a integração da saúde mental à atenção primária no Brasil, configurando um cuidado colaborativo que busca romper com a lógica tradicional e hierarquizada dos sistemas de saúde, marcada por encaminhamentos, referências e contrarreferências burocráticas e pouco resolutivas (CHIAVERINI et al., 2011). 

A proposta do matriciamento busca substituir a rigidez vertical dos fluxos institucionais por uma organização horizontal, favorecendo a comunicação, a corresponsabilidade e a articulação entre os diferentes níveis de atenção. Nesse novo arranjo, o sistema se estrutura em equipes de referência, responsáveis pelo cuidado longitudinal no território (como as equipes da Estratégia de Saúde da Família), e equipes de apoio matricial, que oferecem suporte técnico e pedagógico especializado, no caso, a equipe de saúde mental (CHIAVERINI et al., 2011). 

Segundo Campos e Domitti (2007), essa relação entre equipes constitui uma metodologia de gestão e prática clínica ampliada, fundamentada no diálogo interdisciplinar e na construção coletiva do cuidado. O matriciamento, diferentemente do atendimento especializado tradicional, oferece retaguarda técnica e institucional, fortalecendo a autonomia e a capacidade resolutiva das equipes de referência. Ele também se distingue da supervisão, pois o apoiador matricial participa ativamente do planejamento e execução dos Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), em corresponsabilidade com a equipe local. 

O apoio matricial torna-se, assim, uma ferramenta de transformação dos processos de cuidado e da própria realidade dos territórios e equipes. Pode ser acionado em diversas situações, como na formulação de projetos terapêuticos, no manejo de casos complexos, no suporte a grupos terapêuticos e na integração entre atenção primária e serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Ao promover um espaço de cooperação e aprendizado mútuo, o matriciamento consolida-se como uma estratégia potente de fortalecimento da atenção psicossocial e da integralidade do cuidado em saúde (CHIAVERINI et al., 2011). É possível encontrar mais informações sobre o tema nas referências bibliográficas deste texto e na webaula denominada “Matriciamento em Saúde Mental na Atenção Básica”. 

Conteudista: Caliandra Machado Pinheiro – Psicóloga e sanitarista, doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia. Técnica da Área Técnica de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia. 

Referências Bibliográficas 

CAMPOS, G. W. de S. Equipes de referência e apoio especializado matricial: um ensaio sobre a reorganização do trabalho em saúde. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 393403, 1999. 

CAMPOS G. W. de S.; DOMITTI,  A. C. Apoio matricial e equipe de referência: uma metodologia para gestão do trabalho interdisciplinar em saúde. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2, p. 399-407, 2007. 

CHIAVERINI, D. H. (org.) Guia prático de matriciamento em saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde; Centro de Estudo e Pesquisa em Saúde Coletiva, 2011. 

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