
Modificações na cor, volume e textura das estruturas orais são observadas frequentemente na prática clínica do cirurgião-dentista e refletem ao nível macroscópico processos celulares importantes, que podem culminar no surgimento de uma neoplasia maligna. Nesse sentido, embora os tecidos de revestimento da mucosa oral apresentem dinamismo e resistência, as células do seu epitélio podem responder a agentes irritativos e carcinogênicos com alterações.
Dentre as principais alterações teciduais relacionadas à gênese do carcinoma escamocelular (CEC), o tipo mais comum da cavidade oral e dos lábios, destaca-se a displasia epitelial. Isto é, um conjunto de mudanças arquiteturais e citológicas, que incluem a perda da organização tecidual, aumento da atividade mitótica celular, além de atipias nucleares e citoplasmáticas. É a presença e a gravidade dessas alterações microscópicas, identificadas no espécime proveniente de uma biópsia, que permitem graduar o potencial de malignização de uma lesão oral. De modo geral, quanto mais intensas forem essas anormalidades, maior o risco de progressão para o CEC ¹.
Posto isso, pode-se inferir que as lesões orais potencialmente malignas (LOPM) correspondem a alterações da mucosa oral e lábios com risco aumentado de transformação neoplásica, por poderem apresentar histopatologicamente como células displásicas. É importante ratificar que essas lesões podem não evoluir obrigatoriamente para o câncer; essa chance de malignização irá variar conforme o tipo de lesão, a presença/grau da displasia e a continuação ou cessamento da exposição do paciente a fatores de risco, como tabagismo, etilismo e exposição solar crônica ².
Em geral, o manejo clínico das LOPM baseia-se em três pilares principais:
- Diagnóstico: A biópsia é mandatória para qualquer lesão persistente em que há suspeita de pré-malignidade ou malignidade. Este procedimento é essencial para graduar o grau de displasia e estabelecer o diagnóstico histopatológico definitivo. Nesses contextos, deve-se realizá-la de forma incisional, sempre que possível.
- Controle de risco: orientar e apoiar o paciente a cessar hábitos nocivos (tabagismo, etilismo, exposição solar contínua sem fotoproteção etc.).
- Vigilância e acompanhamento de longo prazo: vigilância regular é mandatória e vitalícia. O monitoramento contínuo é fundamental para detectar possíveis recorrências após o tratamento ou o desenvolvimento de novas lesões.
Abaixo, iremos abordar as principais lesões com potencial de transformação maligna de forma prática.
Leucoplasia oral:
A leucoplasia oral é a LOPM mais comum, definida como uma placa ou mancha branca que não pode ser removida por raspagem e cujo diagnóstico é estabelecido clinicamente, após a exclusão de outras possíveis lesões esbranquiçadas. Pode acometer qualquer região da cavidade oral e manifestar-se de forma homogênea, geralmente fina e plana, ou não-homogênea, quando apresenta superfície irregular, nodular ou verrucosa. Embora as formas brandas raramente evoluam para malignidade sem alterações clínicas prévias, as leucoplasias mais espessas apresentam risco de transformação maligna estimado entre 1% e 7%. O manejo inclui a eliminação de fatores de risco; o paciente deve ser orientado a cessar hábitos deletérios, como o de fumar. Após a confirmação da displasia pelo exame histopatológico, deve ser realizada, se possível, a excisão completa da lesão por laser ou bisturi ² ³.
Leucoplasia Verrucosa Proliferativa:
A Leucoplasia Verrucosa Proliferativa (LVP) é uma forma incomum, agressiva e multifocal de leucoplasia, caracterizada por sua natureza persistente, crescimento lento e altíssima taxa de recorrência após a remoção. As principais áreas de acometimento são a língua e a mucosa jugal. Essa patologia possui fraca associação com o cigarro, havendo também relatos de acometimento em pacientes jovens. A LVP é iniciada como placas brancas planas que progridem para lesões espessas e verrucosas, com aspecto de “couve-flor”. O tratamento consiste na remoção total da lesão, no entanto, as recidivas podem ser constantes e seu prognóstico desfavorável, com risco de transformação maligna em aproximadamente metade dos casos, exigindo vigilância por toda a vida² ⁴.
Eritroplasia:
A eritroplasia é uma lesão caracterizada pela presença de áreas avermelhadas na mucosa oral, que não pode ser diagnosticada como outra lesão conhecida, resultado da atrofia epitelial acentuada e da exposição do plexo vascular subjacente. Embora seja menos comum que a leucoplasia, apresenta risco significativamente maior de displasia grave e carcinoma in situ, sendo considerada uma das lesões de maior potencial de transformação maligna na cavidade oral. Clinicamente, manifesta-se como uma placa vermelha, macia e aveludada, geralmente assintomática, acometendo preferencialmente o assoalho bucal, a língua ou o palato mole. Após a biópsia incisional, na ausência de carcinoma, a lesão deve ser completamente removida, os hábitos de risco cessados e o paciente acompanhado a longo prazo ² ³.
- As lesões leucoeritroplásicas e eritroleucoplásicas representam áreas da mucosa oral que combinam componentes brancos e avermelhados. É importante destacar que essa mistura de tonalidades indica maior risco de displasia moderada a severa, ou já a presença de um carcinoma invasivo³.
Queilite actínica:
É uma lesão cutânea comum provocada pela exposição crônica a radiação ultravioleta que acomete, sobretudo, o lábio inferior de indivíduos brancos. Clinicamente, ela se manifesta inicialmente como um apagamento da borda do vermelhão do lábio, progredindo para um lábio cronicamente seco, áspero, descamativo e atrófico. Com o tempo, podem surgir áreas esbranquiçadas (leucoplásicas) ou úlceras persistentes, que são sinais de alerta para malignização. O tratamento envolve prevenção rigorosa com protetor solar labial e, dependendo da gravidade da displasia encontrada na biópsia, pode variar de terapias tópicas (como 5-Fluorouracil) à remoção cirúrgica (vermilionectomia). É uma lesão de alto risco, com um potencial de transformação em CEC estimado entre 10% e 30% ² ³ ⁵.
Líquen Plano:
É uma condição inflamatória crônica, imunomediada, que acomete principalmente mucosa jugal, língua e gengiva. Clinicamente, pode manifestar-se nas formas reticular, atrófica, erosiva, em placa ou bulbosa, sendo as variantes atrófica e erosiva as mais preocupantes. A forma atrófica apresenta áreas eritematosas bem delimitadas, com afinamento epitelial e sensibilidade aumentada, frequentemente descrita como regiões que ardem. Já a forma erosiva apresenta ulcerações superficiais associadas a zonas eritematosas extensas, bordas irregulares e dor significativa, podendo interferir na alimentação e na higiene. Essas variantes tendem a ser mais persistentes, instáveis e sintomáticas. O diagnóstico é clínico e histopatológico, e o manejo inclui remoção de irritantes locais, controle de fatores de risco e uso de corticosteroides tópicos ou sistêmicos. O acompanhamento regular é essencial, pois sinais como ulceração duradoura, eritroplasia, induração ou mudança rápida no padrão clínico devem motivar investigação imediata, através da biópsia² ³ ⁷.
- O líquen plano reticular oral é a forma mais comum da doença e se caracteriza pela presença das estrias de Wickham, padrão esbranquiçado entrelaçado considerado patognomônico. Quando essa apresentação é clássica e assintomática, não há necessidade de biópsia. Além disso, a literatura indica que o risco de transformação maligna dessa variante é baixo, não sendo a principal preocupação. No entanto, o acompanhamento é mandatório para avaliar se houve a evolução para outras formas² ⁷.
Manifestações orais da Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH):
Pacientes submetidos ao transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas podem desenvolver a DECH, condição imunomediada em que células do doador atacam os tecidos do receptor. A forma crônica pode acometer a cavidade oral, apresentando lesões esbranquiçadas, ulcerações, mucosa atrófica, além de xerostomia e limitação de abertura bucal, comprometendo função e qualidade de vida. O manejo envolve controle imunossupressor, cuidados locais de suporte (lubrificação e higiene) e vigilância contínua. São consideradas suspeitas as áreas ulceradas persistentes, placas brancas espessas ou leucoeritroplásicas, regiões eritematosas, superfícies nodulares ou verrucosas e qualquer induração ou mudança rápida no padrão clínico, indicando necessidade de biópsia⁶.
- ALBIERO, M. L.; SPEIGHT, P. M.; KUJAN, O. Architectural and cytological features of epithelial dysplasia associated with transformation risk. Oral Diseases, v. 29, n. 10, p. 735-744, 2023. DOI: 10.1111/odi.14142.
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- NEVILLE, B. W. et al. Patologia Oral e Maxilofacial. 3. Ed. Rio de Janeiro: 2009.
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- GONZÁLEZ-MOLES, M. Á.; RAMOS-GARCÍA, P. Na evidence-based update on the potential for malignancy of oral lichen planus and related conditions: a systematic review and meta-analysis. Cancers, v. 16, n. 3, p. 608, 2024. DOI: 10.3390/cancers16030608.
MINI CURRÍCULO
Ramilly Santos Silva – Cirurgiã-Dentista graduada pela Universidade Estadual de Feira de Santana; Pós-graduanda em Ortodontia pela Associação Brasileira de Odontologia (Seção Bahia); Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Odontologia e Saúde da Universidade Federal da Bahia; Integrante do Ciclo de Estudos e Pesquisa Epidemiológica em Saúde Bucal da Faculdade de Odontologia da UFBA.
Gabriel Teixeira da Silva – Cirurgião-Dentista graduado pela Universidade Federal da Bahia; Mestrando em diagnóstico oral pela UFBA; Pós-graduando em Patologia Oral e Maxilofacial.