Laserterapia na Odontologia

Rafaela de Oliveira Miranda – Cirurgiã-Dentista graduada pela Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia (FOUFBA). Residente Multiprofissional em Saúde da Família pela FESF-SUS.

O laser é uma radiação eletromagnética com características individuais e que difere da luz comum¹. Pode ser classificado em dois grupos: laser de alta potência, que é utilizado em procedimentos cirúrgicos; e o laser de baixa potência, que é utilizado como forma terapêutica².

Com o surgimento do laser e suas propriedades, novas formas de tratamentos surgiram no campo da Odontologia². Além de ser um método menos invasivo, o laser de baixa potência possui efeitos anti-inflamatórios, analgésicos, efeitos na microcirculação, no crescimento e na regeneração celular³.

Haja vista suas propriedades terapêuticas, correlacionado à necessidade de atualização de métodos de tratamentos que sejam menos invasivos e que possibilitem melhor conforto ao paciente, a laserterapia se torna uma excelente forma de tratamento³. Desta forma, a Resolução CFO-82 de setembro de 2008 introduz a laserterapia como forma de tratamento integrativo no campo da odontologia4.

A laserterapia se tornou um método de tratamento de interesse de diversas especialidades odontológicas como mostram os estudos da periodontia¹, da cirurgia5 ,  da endodontia² e da odontologia hospitalar6.

No que tange a odontologia hospitalar, o principal foco dos estudos e aplicações relacionados a laserterapia são voltados a mucosite oral, condição que pode ocorrer em mais de 40% das inflamações orais em pacientes submetidos a tratamento quimioterápico e/ou radioterapico6. A mucosite é uma reação tóxica inflamatória aguda, que pode interferir na deglutição e facilitar infecções por microorganismos oportunistas7,8. Além disso, se caracteriza por surgir após cerca de duas semanas do início do tratamento oncológico9 .

 De acordo com a escala desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde em 1979 a mucosite pode ser classificada em 4 graus, sendo eles: grau 0 (ausente); grau 1( eritematosa); grau 2 (eritematosa e ulcerada); grau 3 (eritematosa e ulcerada, com paciente restrito a ingestão de líquidos) e grau 4 (eritematosa e ulcerada, com impossibilidade de alimentação) 6.

Os pacientes que passam por tratamento oncológico voltado para câncer de cabeça e pescoço acabam sofrendo com maior intensidade os efeitos da mucosite. A potencialização dos efeitos da mucosite pode levar a interrupção do tratamento, causando maior dano ao paciente e até piora no prognóstico10.

De acordo com a Estimativa de 2023 publicada pelo Instituto Nacional de Câncer, para cada ano do triênio (2023-2025) a estimativa é de 15.100 novos casos de câncer de cavidade oral, considerando os tumores de lábio, cavidade oral, glândulas salivares e orofaringe (C00-C10). Sendo 10,30 novos casos a cada 100 mil homens e 3,83 novos casos a cada 100 mil mulheres. Além do câncer de cavidade bucal, encontramos valores de 12.040 novos casos de linfoma não Hodgkin (LNH) (C82-C85; C96); e 16.660 novos casos de câncer de tireoide (C73)11.

Tendo em vista os dados apresentados, fica evidente a importância da introdução da laserterapia como método terapêutico para pacientes oncológicos. As suas propriedades anti-inflantórias, analgésicas e de reparação tecidual são importantes mecanismos para prevenção e controle da condição. Em casos de uso do laser de baixa potência como forma preventiva, há uma menor potencialização da mucosite oral12 .

Dessa forma, o Cirurgião-Dentista dentro do escopo do diagnóstico, prevenção e manejo, pode introduzir a laserterapia como forma preventiva e de tratamento da mucosite oral, causada por tratamento oncológico12. Isso evidencia a importância do Cirurgião-Dentista na equipe hospitalar, trazendo diferentes olhares terapêuticos e criando novas possibilidades de tratamento, culminando no maior conforto do paciente.

Referências:

  1. Castilho Filho T. Avaliação biomecânica da ação da radiação laser em baixa intensidade no processo de osseointegração de implantes de titânio inseridos em tíbia de coelhos [Internet]. São Paulo: Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN); 2003 [citado 2025 abr 23]. 75 p. Disponível em: https://inis.iaea.org/records/vc5d7-8td24
  2. Araujo GS. Avaliação histológica do efeito do laser de baixa intensidade na resposta do tecido coniuntivo ao cimento Endofill [dissertação de doutorado]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2008.
  3. Cavalcanti TM, Almeida-Barros RQ, Catão MHCV, Feitosa APA, Lins RDAU. Conhecimento das propriedades físicas e da interação do laser com os tecidos biológicos na odontologia. An Bras Dermatol.2011;86(5):955-60. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abd/a/KH8WDHL5Cv9Q3s5DBxgYJGR/?lang=pt
  4. Conselho Federal de Odontologia.Resolução CFO-82/2008: Reconhece e regulamenta o uso pelo cirurgião-dentista de práticas integrativas e complementares à saúde bucal [Internet]. Brasília (DF): Diário Oficial da União; 2008 out 1 [citado 2025 abr 24]. Disponível em: https:// sistemas.cfo.org.br/visualizar/atos/ RESOLU%C3%87%C3%830/SEC/2008/82
  5. Gomes AMM, Santana BR, Ferreira BA, Sousa JVQ de, Gonçalves N dos SB. Uso de laserterapia de baixa potência no pós-operatório de exodontia de terceiro molar: uma revisão de literatura. Rev Iberoam Hum Cienc Educ. 2022;8(10):431-439.Disponível em: https://doi.org/10.51891/rease.v8i10.7147
  6. Reolon LZ, Rigo L, Conto F de, Cé LC. Impacto da laserterapia na qualidade de vida de pacientes oncológicos portadores de mucosite oral. Rev Odontol UNESP. 2017; 46 (1):19-27.doi:10.1590/1807-2577.09116.
  7. Araújo SNM, Araújo Luz MHB, Silva GRF,Andrade EMLeR, Nunes LC, Moura RO. O paciente oncológico com mucosite oral: desafios para o cuidado de enfermagem. Rev Lat Am Enfermagem. 2015 mar-abr;23(2):267-74. doi: 10.1590/0104-1169.0090.2551. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rlae/a/rNMD3gTTfszWjYqDBJpYp8N/?format=pdf&lang=pt
  8. Bonan OL, Costa R, Habr-Gama A, et al.Terapias combinadas no tratamento de câncer. Rev Bras Cancerol.2005;51(4):287-295. Available from: https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/ article/view/1951/1185. Accessed April 23, 2025.
  9. Santos MA, Oliveira AC, Lima FO, et al.Repercussões do uso de substâncias psicoativas na saúde mental dos trabalhadores de saúde. Rev Esc Enferm USP. 2011;45(3):686-693. Available from: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Z8FDWMLLsjpb7m9KqH6KfkD/?format=pdf&lang=en. Accessed April 23,2025.
  10. Alburqueque MF, et al. Mucosite oral: patobiologia e implicações clínicas. Rev Bras Cancerol. 2010. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/artigos/mucosite_oral_patobiologia.pdf
  11. Brasil. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Câncer (INCA); 2023. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//estimativa-2023.pdf
  12. Neves LJ, Boldrini E, Tanimoto HM, Trevisani DM, Lopes LF, Macari KSM. Avaliação do efeito do laser preventivo na mucosite oral quimioinduzida em pacientes submetidos a altas doses de metotrexato. Rev Bras Cancerol. 2021;67(1):e-041128. doi:10.32635/2176-9745.RBC.2021v67n1.1128.

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