Fluoretos na odontologia contemporânea: segurança e implicações para a Saúde Bucal e sistêmica.

Andreza Mascarenhas Batista – Cirurgiã-dentista graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Residência pelo Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). 

No panorama da Saúde Pública, a cárie dentária persiste como uma das doenças bucais mais prevalentes na população mundial, tanto para a dentição decídua quanto permanente, segundo o último relatório global de saúde bucal publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 20221. No panorama nacional, o relatório final do Projeto SB Brasil 2023 revelou que a cárie dentária ainda é um problema de saúde pública para a população brasileira, uma vez que o percentual de cáries não tratadas ainda é significativo. Nesse sentido, a doença responde por cerca de 40% dos casos em crianças e adolescentes, mais de 50% em adultos, e cerca de um terço em idosos2. Diante desse cenário, medidas coletivas de prevenção da cárie têm sido demandadas para a redução da doença no Brasil e no mundo, como é o caso do uso de fluoretos em águas de abastecimento e dentifrícios fluoretados. Essas medidas, por sua vez, são consideradas formas de prevenção e estratégias de saúde pública com indicação a todas as populações3.  

Na cavidade bucal, o mecanismo de ação inicial atua na interface dente-biofilme, de forma tópica, com o objetivo de reduzir a desmineralização e favorecer a remineralização do esmalte. Esse processo ocorre devido à presença contínua de baixas concentrações de íon flúor na cavidade oral provenientes das águas de abastecimento. Nesses casos, porém, destaca-se que a concentração de fluoretos em torno de 0,7 ppm de F não interage com os tecidos duros bucais devido a essa baixa concentração, sendo necessária a adoção de enxaguatórios bucais e dentifrícios com concentrações em torno de 1.000 a 1.500 ppm de F, para as formulações de Na₂FPO₃ ou NaF de dentifrícios comercializados no Brasil4. Dessa forma, a manutenção de fluoretos em níveis terapêuticos torna-se essencial no controle da progressão de lesões cariosas iniciais e na prevenção de cavitações na população em geral. Os fluoretos, por si só, não são capazes de impedir o desenvolvimento da doença devido à aderência de produtos bacterianos aos tecidos dentários e fermentação de açúcar em ácidos, embora a presença desses íons seja importante na ação anticárie. Por esse motivo, a desorganização diária do biofilme bacteriano por meio da escovação dental é a principal ferramenta para o controle da doença, concomitante à redução do consumo de açúcar. 

A farmacocinética do flúor no organismo compreende a sua absorção pelo trato gastrointestinal, distribuição através da corrente sanguínea, armazenamento em tecidos calcificados, como ossos e dentes, e excreção renal. No que tange à segurança, os riscos decorrentes do uso de fluoretos são classificados em toxicidade aguda e crônica. Para a toxicidade aguda, é necessário que ocorra a ingestão de uma dose a partir de 5,0 mg F/kg de peso corporal, considerada uma Dose Provavelmente Tóxica (DPT) que necessita de intervenção terapêutica devido a problemas gastrointestinais e possibilidade de serem desenvolvidas graves consequências4. Ainda assim, a fluoretação das águas de abastecimento e o uso de dentifrícios fluoretados são consideradas medidas seguras. Segundo Cury (2024), seria necessário ingerir 143 litros de água fluoretada ou 20 a 90 g de dentifrício para o desenvolvimento de toxicidade por flúor para que uma criança entre 5 e 6 anos com 20 kg obtenha uma DPT5. Dessa forma, o risco de toxicidade aguda é extremamente baixo e geralmente associado a acidentes com excessiva ingestão de flúor, o que não ocorre com o consumo diário de água fluoretada ou dentifrícios. A toxicidade crônica, por sua vez, refere-se à ingestão de pequenas quantidades concentradas de fluoretos por um período constante. Em vista disso, podem ser desenvolvidas as condições de fluorose dentária e óssea, onde a primeira geralmente ocorre em crianças no período de formação dentária associada ao processo de hipomineralização, enquanto a segunda é considerada um risco que se prolonga por toda a vida do indivíduo devido ao processo de hipermineralização óssea. Ainda assim, essas são condições que não comprometem a qualidade de vida das pessoas ou aumentam as chances de surgirem outros efeitos sistêmicos4

Manejar o risco de ingestão excessiva de fluoretos envolve a orientação de pais e cuidadores sobre a quantidade correta de dentifrício a ser ofertado a crianças pequenas, que equivale a um grão de arroz ou ervilha, associada à supervisão da escovação. Além disso, compreende-se que a fluorose não é uma doença sistêmica debilitante, mas um biomarcador de ingestão de flúor durante a infância6, que possui relevância clínica intensa preventiva contra dor e infecções decorrentes da cárie severa.  

Na saúde pública, a fluoretação das águas de abastecimento é reconhecida como uma medida de equidade social a indivíduos que não possuem acesso regular a cuidados profissionais ou que têm dietas ricas em açúcares, alimentos processados e ultraprocessados. Nessa perspectiva, alguns dados atuais demonstram que a interrupção de programas de fluoretação invariavelmente leva a um aumento nos índices de cárie em populações vulneráveis e sobrecarga dos sistemas públicos de saúde7. Assim, a incorporação do flúor às políticas de saúde bucal não deve ser considerada isoladamente, mas como parte de uma estratégia sistêmica de promoção de saúde que inclui bons hábitos alimentares e higiene oral adequada. Contemporaneamente, a ciência entende que o benefício de prevenir uma doença bacteriana supera amplamente riscos estéticos associados à ingestão controlada de fluoretos. 

Recentemente, o Ministério da Saúde publicou uma nova versão do Guia de Recomendações do Uso de Fluoretos no Brasil, onde apresenta um protocolo de atendimento indicado para casos de ingestão de doses excessivas de flúor. Esse protocolo, indicado no Quadro 18, é recomendado a profissionais capacitados para a sua aplicação.  

Fonte: NOBREGA; TENUTA; CURY, (2017)8 adaptado de BAYLESS; TINANOFF (1985)9.

 

Atualmente existe um desafio importante para que os profissionais de saúde e gestores estabeleçam uma comunicação clara e efetiva com a população a respeito dos benefícios decorrentes do uso de fluoretos. A partir disso, existe o objetivo de reduzir a propagação de mitos a partir da divulgação de dados robustos de vigilância em saúde e pesquisa clínica. A prevenção da cárie, numa perspectiva futura, aponta para abordagens mais personalizadas, onde a exposição ao flúor é ajustada conforme o risco individual, garantindo a saúde bucal sem comprometer a integridade sistêmica. Acompanhar as atualizações periódicas de órgãos como o Ministério da Saúde e as diretrizes internacionais da OMS é o caminho para uma prática clínica ética e eficiente. O compromisso com a ciência garante que o uso de fluoretos continue a ser uma das maiores conquistas da saúde pública mundial e brasileira, promovendo saúde bucal e qualidade de vida para as populações.  

 

 REFERÊNCIAS 

  1. WHO. Global oral health status report. World Health Organization, 2022. 

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Estratégias e Políticas de Saúde Comunitária. SB Brasil 2023: Pesquisa Nacional de Saúde Bucal: relatório final [Internet]. 1. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.  

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. A saúde bucal no Sistema Único de Saúde. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018.  

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Saúde da Família. Guia de recomendações para o uso de fluoretos no Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Departamento de Saúde da Família. – 2. ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 

  1. CURY, J. A. Cariologia & fluoretos em odontologia: da pediatria à geriatria. São Paulo: Santos Publicações, 2024. 

  1. SIRIGALA, L. et al. Prevalence of Dental and Skeletal Fluorosis Among School Children in Rural Areas of YSR Kadapa District, Andhra Pradesh, India. Cureus, 29 dez. 2023. doi: 10.7759/cureus.51288. 

  1. FRAZÃO, P.; NARVAI, P. C. Cobertura e vigilância da fluoretação da água no Brasil: municípios com mais de 50 mil habitantes. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, 2017. 

  1. NOBREGA, F. F.; TENUTA, L. M. A.; CURY, J. A. Metabolismo e toxicidade do fluoreto. In: CURY, J. A.; TENUTA, L. M. A.; TABCHOURY, C. P. M. (org.). Bioquímica oral. São Paulo: Artes Médicas, 2017. p. 124-144. 

  1. BAYLESS, J.M.; TINANOFF, N. Diagnosis and treatment of acute fluoride toxicity. J Am Dent Assoc. 110(2):209-11, 1985.  

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