O câncer de boca corresponde a um conjunto de neoplasias malignas que acometem diferentes sítios da região de cabeça e pescoço, incluindo lábios, cavidade oral e orofaringe, sendo uma condição de elevada relevância em saúde pública devido à sua expressiva incidência e mortalidade (INCA, 2022). A doença é mais prevalente em homens acima de 40 anos, tabagistas, etilistas e pertencentes a grupos socioeconômicos menos favorecidos, com a língua sendo o sítio anatômico mais acometido e o carcinoma de células escamosas (CCE) o tipo histológico predominante (Rutkowska et al., 2020; INCA, 2022).
No caso específico do câncer de lábio, a exposição crônica à radiação ultravioleta, principalmente aos raios ultravioletas B (UVB), constitui o principal fator de risco e está associada a alterações moleculares em genes (IARC, 1997; Rumgay et al., 2025). Os principais grupos de risco para o câncer de lábio incluem indivíduos do sexo masculino, de meia-idade a idosos, de pele clara, que realizam atividades ocupacionais ou de lazer ao ar livre, residentes em regiões próximas à linha do equador, além de pacientes com distúrbios genéticos, como albinismo e xeroderma pigmentoso (Moreira et al., 2021; Neville et al., 2016).
No Brasil, país de clima tropical, a exposição solar excessiva é o principal determinante ambiental para neoplasias relacionadas ao sol (INCA, 2022). Estima-se que 23,5% dos trabalhadores brasileiros estejam expostos à radiação ultravioleta em seus ambientes de trabalho, especialmente homens, configurando um importante fator de risco para lesões cutâneas associadas à exposição aos raios UV (Nogueira et al., 2025). Na Bahia, essa exposição é ainda mais expressiva, em razão das atividades externas e do clima predominantemente ensolarado, aumentando o risco de lesões labiais associadas à radiação UV, que podem evoluir para carcinoma de células escamosas, o que reforça a necessidade de medidas preventivas (Nogueira et al., 2025).
O carcinoma de células escamosas de lábio acomete predominantemente o lábio inferior e apresenta melhor prognóstico do que as lesões intraorais, devido à maior visibilidade e à possibilidade de diagnóstico precoce (Mello et al., 2019; INCA, 2022). Clinicamente, as lesões costumam manifestar-se como úlceras de bordas elevadas e base endurecida, podendo ser precedidas por desordens potencialmente malignas, como a queilite actínica. Esta, por sua vez, caracteriza-se como uma degeneração crônica do vermelhão labial, especialmente do lábio inferior, resultante da exposição prolongada e cumulativa à radiação ultravioleta (MARCUCCI, 2020; NEVILLE et al., 2016). Adicionalmente, fatores como tabagismo e estados de imunossupressão podem atuar como coadjuvantes no aumento do risco de transformação maligna dessas lesões (NEVILLE et al., 2016). Embora frequentemente assintomática, alguns pacientes com queilite actínica relatam ardência, sensação de queimação, dor ou alterações na mobilidade labial (Lupu et al., 2018), sendo a biópsia incisional indicada conforme a apresentação da lesão para confirmação diagnóstica (Marcucci, 2020).
No âmbito do Sistema Único de Saúde, a Atenção Primária e os Centros de Especialidades Odontológicas desempenham papel essencial na identificação e diagnóstico dessas lesões, sendo o cirurgião-dentista profissional fundamental nesse processo (BRASIL, 2017; BRASIL, 2006). Nesse contexto, visitas regulares ao cirurgião-dentista permitem a detecção precoce de alterações suspeitas, reforçando a importância do exame clínico periódico para prevenção de complicações e aumento das chances de sucesso do tratamento (Natarajan et al., 2024).
A prevenção primária consiste em um conjunto de medidas destinadas a evitar que a doença se desenvolva, atuando sobre os fatores de risco antes que surjam lesões ou sintomas clínicos. No caso do câncer de boca, a prevenção primária inclui a cessação do tabagismo, a moderação do consumo de álcool, a vacinação contra HPV, a adoção de dieta rica em frutas e vegetais, a manutenção de boa higiene oral, a realização de visitas odontológicas regulares para exames clínicos e, de forma especialmente relevante para o câncer de lábio, o uso diário de protetor labial com Fator de Proteção Solar (FPS) adequado (Natarajan et al., 2024). O protetor labial atua criando uma barreira contra a radiação ultravioleta, prevenindo a degeneração do vermelhão do lábio e reduzindo o risco de transformação maligna de lesões pré-existentes (Siqueira, 2024).
A literatura aponta que apesar da alta exposição solar, muitos indivíduos ainda negligenciam o uso de protetor labial, recorrendo equivocadamente a produtos como manteiga de cacau, que não oferecem fotoproteção eficaz (Siqueira, 2024; Lucena et al., 2012). O uso diário de protetor labial com FPS é destacado como uma das medidas mais simples, acessíveis e eficazes para reduzir a incidência de lesões malignas (INCA, 2022; Natarajan et al., 2024).
Estudos demonstram que o uso regular de protetor solar labial está associado à redução significativa da prevalência de lesões malignas nos lábios, estimada em 21,7%, evidenciando o papel da fotoproteção como estratégia preventiva relevante (Moon et al., 2021). Além disso, o mesmo estudo identificou que indivíduos que realizavam a aplicação do protetor solar labial mais de uma vez ao dia apresentaram aproximadamente metade do risco de desenvolvimento dessas lesões quando comparados àqueles que não utilizam ou utilizavam de forma irregular o produto, indicando uma relação dose-resposta entre a frequência de aplicação e a proteção conferida. Esses achados reforçam a importância da adoção do protetor solar labial como prática contínua, especialmente em populações expostas de forma crônica à radiação ultravioleta, como trabalhadores ao ar livre, contribuindo para a prevenção de lesões pré-malignas e do câncer de lábio (Moon et al., 2021).
A educação em saúde, aliada a políticas públicas que incentivem o uso de protetor solar labial, é fundamental para estimular a adesão a hábitos preventivos capazes de reduzir significativamente a incidência do câncer de lábio (INCA, 2022; Berking et al., 2007; Orenstein et al., 2007). Nesse contexto, o cirurgião-dentista desempenha papel central na ordenação do cuidado em saúde, atuando tanto na prevenção primária – por meio da orientação e indicação do uso adequado de protetor labial, especialmente para indivíduos cronicamente expostos à radiação ultravioleta – quanto na detecção precoce de lesões suspeitas na região labial e na cavidade oral, realizando ou indicando a biópsia para confirmação diagnóstica e realizando o encaminhamento oportuno aos serviços de oncologia para tratamento especializado, contribuindo de forma decisiva para a redução do risco e da morbimortalidade associada a essas lesões.
Colunistas:
Natália Martins Souza Mesquita. Bacharela em Saúde (UFBA); Cirurgiã-Dentista (UFBA); Especialista em Saúde da Família (FESF-SUS/FIOCRUZ); Especialista em Saúde Pública (LÍBANO); Mestranda em Saúde Coletiva (UNEB); Sanitarista SESAB.
Noemi de Jesus dos Santos Cäsar. Bacharela em Saúde (UFBA); Cirurgiã-dentista (UFBA). Mestranda em Saúde Coletiva pelo Programa de Saúde Coletiva da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
REFERÊNCIAS
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