DOENÇA MÃO-PÉ-BOCA E O PAPEL DO CIRURGIÃO-DENTISTA

Anyele Matos – Cirurgiã-dentista

A síndrome ou doença mão-pé-boca (DMPB) é definida como uma doença humana altamente contagiosa, causada pelos vírus Coxsackie. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a doença é frequentemente encontrada em crianças de 0 a 5 anos, no entanto, embora não seja comum, os adultos também podem ser acometidos. A forma de transmissão da infecção é por contato oral-fecal, pelas secreções das lesões, fômites, e também, por via respiratória1,2.

Os principais sinais e sintomas clínicos são: febre, dor de garganta e recusa alimentar, associadas à presença de lesões vesiculares, geralmente na mucosa bucal e na língua, e erupção pápulo-vesicular localizada nas mãos e pés, podendo também aparecer de forma menos frequente nos cotovelos, tornozelos, glúteos e região genital2. Em relação à sintomatologia na cavidade bucal, geralmente os locais mais acometidos são língua, gengiva, úvula, mucosa oral e palato1.

O diagnóstico é realizado geralmente a partir dos sinais clínicos. No início da doença, os sintomas se parecem com uma virose comum, no entanto, após algumas semanas, aparecem as lesões características da doença, tornando-a facilmente identificável3,4 Para diminuir o risco de contaminação, é fundamental manter a higiene pessoal das crianças, principalmente em escolas e creches. Além disso, é recomendado o distanciamento dos indivíduos infectados para evitar a disseminação da doença3.

Na maioria dos casos, essa é uma infecção autolimitada, com melhora do quadro após cerca de 7 a 10 dias. O tratamento é sintomático e requer o aumento da ingestão de líquidos, repouso e alimentação leve. Também pode ser necessária a prescrição de antitérmicos e anti-inflamatórios para controle dos sintomas. Todavia, existem casos mais raros de agravamento da doença, quando a doença atinge o sistema nervoso central, podendo desencadear sintomas cardíacos e pulmonares graves e até levar à morte. Em casos de agravamento da doença, é recomendável o uso de medicamentos antivirais2,4.

No Brasil, não existe vacina para a doença, por esse motivo, as medidas de prevenção e controle se tornam de extrema importância. As principais medidas de controle são: afastamento dos sintomáticos até resolução dos sintomas e intensificação das medidas de higiene de mãos, do ambiente e de superfícies, com especial enfoque em objetos compartilhados4.

A DMPB não é considerada de notificação compulsória, entretanto, a ocorrência de dois ou mais casos relacionados devem ser notificados como surto4. Recentemente, houve um alerta epidemiológico sobre o aumento dos casos de DMPB em diferentes regiões do Brasil e da América Latina, divulgado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), orientando sobre o fortalecimento da prevenção e do controle da DMPB, principalmente em crianças menores de 05 anos5.

A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, através da Diretoria Geral de Vigilância em Saúde e do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde divulgou uma Nota Técnica, em 14 de abril de 2025, (Nota técnica SMS/DVIS/CIEVS N. 06/2025), informando sobre o aumento expressivo no registro dos casos da doença em Salvador no ano de 2025, em comparação ao mesmo período de 2024. Segundo os registros, até a 15ª semana epidemiológica (SE) foram notificados 507 casos, contra apenas 09 casos no mesmo período do ano anterior, em Salvador6,7.

Fica evidenciado, dessa maneira, a necessidade de conhecer e divulgar informações corretas sobre a doença. O diagnóstico precoce é de extrema importância e eficácia para evitar a disseminação da doença e o aparecimento de surtos. Por esse motivo, é imprescindível que o cirurgião-dentista tenha adequado conhecimento sobre a doença, uma vez que os sintomas são prevalentes na região oral, podendo ser diagnosticada e tratada pelo dentista1.

A doença mão-pé-boca é facilmente disseminada em ambiente escolar, uma vez que a principal característica da doença é a formação de vesículas, que, ao explodirem, liberam líquidos com o vírus que se espalham para outros locais da pele, pelo ambiente e em objetos. Como na escola as crianças costumam estar em contato próximo e compartilhar brinquedos, a doença se espalha facilmente nesse ambiente8.

Sendo assim, as medidas de controle e prevenção são indispensáveis e devem sempre ser repassadas pelos profissionais aos pais, professores e sociedade de maneira geral. No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), por exemplo, todos os profissionais, incluindo o cirurgião-dentista, têm papel importante na disseminação de informações sobre a doença e conscientização da comunidade, para além do manejo dos cuidados clínicos e sanitários. Isso pode ser feito de maneira eficaz através de atividades de educação em saúde, como salas de espera, rodas de conversa, distribuição de panfletos, etc. Além disso, o dentista também tem o compromisso sanitário de notificar os surtos à vigilância epidemiológica local 9.

Para prevenir a disseminação da doença, os sintomáticos não devem frequentar a escola ou creche, além de evitar contato próximo e compartilhar objetos. Também torna-se indispensável lavar as mãos com frequência e limpar e desinfetar as superfícies e objetos tocados com frequência. Ademais, é papel de todos monitorar locais de maior risco (escolas, creches, clubes, etc) e encaminhar os casos da doença ao serviço de saúde mais próximo para diagnóstico, orientações sobre o tratamento e o controle da doença, além de uma possível notificação, em casos de surto6,7.

Destarte, o cirurgião-dentista, tem um papel importante no combate à doença mão-pé-boca, seja no diagnóstico precoce e tratamento adequado, ou seja, na disseminação de conhecimento acerca da doença e dos métodos de prevenção e controle, de forma que possa ajudar a desenvolver um senso de responsabilidade individual e coletivo, contribuindo para que as pessoas adquiram autonomia para preservar e melhorar a sua vida e a sua saúde8. 

Conteudista: Anyele Jesus Matos – Cirurgiã-dentista formada pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, residente em Saúde da Família – FESF-SUS/FIOCRUZ, pós-graduanda em Saúde Pública – Gran Faculdade

REFERÊNCIAS:

  1. Eduarda Vaz Mousinho, Alan Douglas Silva Alencar, Paola Soares Lopes, Daniel Messias Limeira, Vivian Teixeira Gomes et al. 2022. “Doença mão- pé- boca e suas principais manifestações clínicas orais: uma revisão integrativa”, International Journal of Development Research, 12, (12), 61020-61023.
  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA – SBP. Síndrome mão-pé-boca. [S.l.: s.n.], set. 2019. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/_22 039d-DocCient_-_Sindrome_Mao-Pe-Boca.pdf. 
  1. Calili, L. C. C. ., Leal, W. D. S. ., Tosate, T. da S. ., Souza, L. C. B. de ., Araújo, J. M. P. ., Reis, M. B. dos ., … Bacelar Júnior , A. J. . (2021). SÍNDROME MÃO, PÉ E BOCA CAUSADA PELO VÍRUS COXSACKIE: UMA ANÁLISE DA LITERATURA . Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 7(10), 2317–2330. https://doi.org/10.51891/rease.v7i10.2815
  1. Da Motta, A. B. T., De Barros, D. C., Nikolai, D. J., Marques, F. D. M., De Andrade, K. V., Lima, l. R. N., & neto, S. L. H. Síndrome mão-pé-boca: revisão de literatura.
  1. Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde. Alerta epidemiológico: Doença de mão-pé-boca, 26 de março de 2025. Washington, D.C.: OPAS/OMS; 2025.
  1. SALVADOR, Secretaria Municipal de Saúde. Diretoria Geral de Vigilância em Saúde. Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde. NOTA TÉCNICA SMS/DVIS/CIEVS N. 06/2025 de 14 de abril de 2025: Orientações sobre a doença/síndrome mão-pé-boca (CID 10: B08.4). Disponível em: cievs.saude.salvador.ba.gov.br/download/nota-tecnica-no-06_sms_dvis_cievs_2025-mao-pe-boca/?wpdmdl=4457&refresh=68347e727c8e91748270706
  1. SALVADOR, Secretaria Municipal de Saúde. CIEVS. Boletim Epidemiológico da Doença Mão-Pé-Boca n. 02, ano 2025. Disponível em:  http://www.cievs.saude.salvador.ba.gov.br
  1. Silva N. R. da; Silveira R. E. da; Capelario E. de F. S.; Silva W. G. da; Brito L. S. B.; Fachini M.; Nascimento K. W. S. do; FaustA. J.; Oliveira V. G. de; Zanoni R. D. Características da doença mão-pé-boca e a relação do seu alto contágio dentro do ambiente escolar. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 23, n. 2, p. e12035, 9 fev. 2023.
  1. Anderson, R. F., Gratão, V. M., & de Carvalho, E. L. F. (2022). A importância da atenção primária no prognóstico da síndrome mão-pé-boca: revisão de literatura. Anais da Semana Universitária e Encontro de Iniciação Científica (ISSN: 2316-8226), 1(1).
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