(Competência Janeiro 2026) Como manejar encoprese funcional secundária na Atenção Primária à Saúde (APS)?

Mês de Referência: Janeiro de 2026

ID: 20612

Núcleo: Telessaúde Bahia (SESAB)

Área Temática: Cuidados primários / Saúde da Criança

RESPOSTA:

O quadro clínico apresentado é compatível com encoprese funcional secundária sem constipação, caracterizada pelo caráter situacional e comportamental (ocorre exclusivamente no domicílio e há capacidade de continência no ambiente escolar). Na Atenção Primária, o manejo imediato deve priorizar uma abordagem educativa, comportamental e familiar. Do ponto de vista orgânico, na ausência de sinais de alerta (como encoprese noturna, dor abdominal persistente, diarreia crônica ou sangue nas fezes), não há indicação de investigação extensa ou invasiva, devendo-se apenas excluir a constipação intestinal subclínica por meio de exame físico e anamnese detalhada.

Fundamentação Teórica

A encoprese funcional é o resultado da interação complexa entre fatores comportamentais, emocionais e contextuais. Não deve ser interpretada como um comportamento voluntário, intencional ou opositor da criança.

  • Comportamento de Evitação: Crianças com encoprese frequentemente desenvolvem padrões de evitação da defecação devido a medos, desconforto, experiências negativas ou interpretações fantasiosas (como o medo de animais no vaso sanitário, especialmente comum em zonas rurais). Esses fatores funcionam como mantenedores do problema.
  • Fatores Estressores: A encoprese funcional secundária exige atenção aos gatilhos psicossociais. Mudanças na dinâmica e rotina, instabilidade familiar (como alternância de domicílios) e dificuldades escolares (histórico de repetência no pós-pandemia) criam um contexto de vulnerabilidade emocional que perpetua o quadro, mesmo sem um trauma explícito relatado.
  • Investigação Orgânica: A constipação intestinal continua sendo a principal causa de escape fecal na infância. Contudo, em quadros tipicamente funcionais e sem red flags (sinais de alarme) neurológicos ou de malformações anorretais, a literatura desencoraja exames complementares invasivos.

Orientações Práticas para a APS

O papel da APS é coordenar o cuidado e oferecer suporte contínuo à família por meio das seguintes condutas:

  • Orientação Familiar e Desmistificação: Esclarecer aos cuidadores que o escape fecal não é proposital. Orientar expressamente a suspensão de atitudes punitivas, críticas ou situações que exponham a criança, pois aumentam a vergonha e agravam o quadro.
  • Treinamento de Hábito Intestinal: Estabelecer uma rotina diária e previsível para o uso do vaso sanitário (preferencialmente após as refeições), em ambiente tranquilo, com tempo delimitado e utilizando estratégias de reforço positivo.
  • Acolhimento Lúdico dos Medos: Realizar adaptações simples no banheiro e abordar o medo do ambiente sanitário de maneira acolhedora para favorecer a participação da criança.
  • Abordagem Multidisciplinar: A solicitação de relatório da coordenação da escola (já realizada) é uma conduta correta e recomendada para avaliar a interação social, a atenção e possíveis dificuldades de aprendizagem associadas.
  • Monitoramento Clínico: Reavaliar periodicamente. Se a família for engajada e cooperativa com as mudanças ambientais e comportamentais, o prognóstico na APS costuma ser bastante favorável.

Codificação

  • CID-10: F98.1 (Encoprese de origem não-orgânica)
  • CIAP-2: P13 (Encoprese/outros problemas de incontinência fecal)

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Tratado de Pediatria. 5ª ed. Barueri: Manole; 2022. Capítulo: Encoprese funcional.
  2. Beaudry-Bellefeuille I, Cabine D, Lane SJ. Comportamento Específico de Defecação em Crianças com Problemas Funcionais de Defecação: Uma Revisão Sistemática. Perm J. 2017;21:17-047. doi: 10.7812/TPP/17-047. PMID: 29035187; PMCID: PMC5638627.
  3. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, et al., editores. Medicina Ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2022.
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