(Competência Fevereiro 2026) Qual a conduta na Atenção Primária à Saúde para paciente com Doença Falciforme (genótipo HbSC), hiperferritinemia e sinais de dano orgânico crônico enquanto aguarda avaliação especializada?

Mês de Referência: Fevereiro de 2026

ID: 22714 

Área Temática: Cuidados primários / Hematologia

RESPOSTA:

O padrão eletroforético de HbS 41% e HbC39% define a Doença Falciforme heterozigótica composta (genótipo HbSC). A conduta imediata na Atenção Primária à Saúde (APS) consiste no acompanhamento clínico, monitoramento de complicações sistêmicas e prevenção de infecções, enquanto o paciente aguarda o seguimento especializado (Hemoba). Na APS, não há indicação para iniciar terapia quelante de ferro baseada isoladamente na ferritina elevada, nem de introduzir hidroxiureia, decisões que competem ao hematologista.

Fundamentação Teórica

A Doença Falciforme heterozigótica composta (HbSC) é uma forma clínica que, apesar de frequentemente cursar com níveis de hemoglobina próximos ao normal (menor grau de anemia), apresenta alto risco para complicações vasculares e multissistêmicas.

  • Danos Orgânicos Crônicos: O achado ultrassonográfico de baço não visualizado é compatível com autoesplenectomia funcional (comum em distúrbios falciformes). A redução do contraste corticomedular renal sugere nefropatia falciforme.
  • Hemólise e Sobrecarga Férrica: A hiperferritinemia persistente (> 1500 ng/mL), associada ao aumento de LDH e reticulocitose, aponta para hemólise crônica e possível sobrecarga de ferro. No entanto, o valor de ferritina isolado não define a necessidade de tratamento quelante, sendo obrigatória a quantificação do ferro hepático por métodos de imagem validados (como a Ressonância Magnética).
  • Terapia Modificadora de Doença: O uso de hidroxiureia no genótipo HbSC tem indicações muito específicas (como dor recorrente ou eventos graves) e deve ser conduzido pela atenção especializada.

Orientações Práticas para a APS

O paciente possui indicação de seguimento especializado programado, mas não se trata de uma emergência regulatória. O manejo contínuo na APS deve focar em:

  • Monitoramento Laboratorial:
    • Hemograma com contagem de reticulócitos (acompanhamento da hemólise).
    • Creatinina, EAS e pesquisa de albuminúria (se houver proteinúria detectada, considerar a introdução de IECA ou BRA para proteção renal).
    • Ferritina (seriada trimestralmente).
    • Função hepática (semestralmente).
  • Rastreamento de Complicações: Recomenda-se avaliação oftalmológica anual (devido ao alto risco de retinopatia falciforme, comum na HbSC) e solicitação de ecocardiograma caso o paciente apresente dispneia (para rastreio de hipertensão pulmonar).
  • Prevenção de Infecções (Asplenia Funcional): A vacinação é mandatória. O paciente deve receber esquema vacinal especial contemplando vacinas Pneumocócicas, Meningocócicas, Haemophilusinfluenzae tipo B (Hib) e Influenza anual.
  • Orientações Gerais: Instruir o paciente a manter hidratação regular constante, evitar exposições a situações de hipóxia ou desidratação, e buscar atendimento médico precocemente em vigência de febre.

Codificação

  • CIAP-2: B47 (Consulta com especialista); B78 (Anemia hemolítica hereditária)
  • CID-10: D57.2 (Distúrbios falciformes heterozigóticos duplos)

Referências

  1. Aird WC, van Zuuren EJ. Chronic management ofsicklecelldisease. DynaMed [Internet]. 2025 Aug 8.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 5, de 19 de fevereiro de 2018. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme.
  3. Gusso G, Lopes JMC, Dias LC. Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. Capítulo Anemias. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2019.

 

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