(Competência Agosto/2026) Como avaliar e manejar, na Atenção Primária à Saúde, o sangramento uterino anormal de grande volume em mulher na transição menopausal, e quais alternativas conservadoras à histerectomia podem ser oferecidas?

Mês de Referência: Agosto de 2026

ID: 39975

Área Temática: Saúde da Mulher — Ginecologia / Transição menopausal

 

RESPOSTA:

O sangramento uterino anormal (SUA) é frequente na transição menopausal, em razão dos ciclos anovulatórios, mas, aos 50 anos, um sangramento intenso e prolongado não deve ser atribuído apenas a essa fase da vida. O Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa (Ministério da Saúde, 2026) considera mandatória, nos casos de sangramento uterino intenso, a investigação e exclusão de causas benignas e malignas — miomas, pólipos, hiperplasia endometrial e carcinoma de endométrio (2). A investigação segue a classificação PALM-COEIN, que separa as causas estruturais (pólipo, adenomiose, leiomioma, malignidade/hiperplasia) das não estruturais (coagulopatia, disfunção ovulatória, causa endometrial, iatrogênica e não classificada) (1) O SUA na transição menopausal de difícil controle clínico, como neste caso, é sinal de alerta e indica propedêutica complementar: a ultrassonografia transvaginal com medida da espessura endometrial é o exame inicial, o diagnóstico definitivo é histológico (biópsia de endométrio; histeroscopia na rede especializada) e, se o sangramento persistir, a investigação deve prosseguir mesmo com ultrassonografia normal (2) O tratamento clínico é a primeira linha, e a histerectomia fica reservada para a falha real das estratégias conservadoras ou para a escolha informada da mulher (1). O DIU liberador de levonorgestrel (DIU-LNG) 52 mg é a opção clínica mais eficaz para reduzir o fluxo, além de oferecer contracepção e proteção endometrial (2);. Outras alternativas são o ácido tranexâmico (não hormonal, usado nos dias de sangramento), os anti-inflamatórios não esteroidais e os progestagênios orais (1). Os contraceptivos combinados com etinilestradiol, úteis em mulheres mais jovens, devem ser reavaliados a partir dos 50 anos, pelo risco cardiovascular e trombótico (2) A dificuldade da paciente em aceitar a histerectomia deve ser acolhida: como a menopausa costuma ocorrer por volta dos 50 anos, um tratamento conservador eficaz pode ser suficiente até a cessação natural das menstruações — desde que a investigação endometrial afaste lesão pré-maligna ou maligna.

Informações Complementares:

1. Avaliação na APS

• Caracterizar o padrão menstrual: frequência, duração e volume (troca de absorventes, coágulos, extravasamento noturno), além do impacto na vida profissional, pessoal e sexual (2);

• Investigar fatores de risco para hiperplasia e câncer de endométrio: obesidade, diabetes, anovulação crônica, nuliparidade, menopausa tardia, uso de tamoxifeno ou de estrogênio sem progestagênio e síndrome de Lynch (2)

• Exames: hemograma e ferritina (anemia ferropriva), beta-hCG e TSH; coagulograma se houver história sugestiva de coagulopatia (1);

• Ultrassonografia transvaginal e, conforme o resultado e a persistência do sangramento, biópsia de endométrio (2).

2. Tratamento clínico

• DIU-LNG 52 mg: opção de maior eficácia na redução do sangramento Antes da inserção, é preciso investigar o sangramento e excluir distorção da cavidade (como mioma submucoso), situações em que o DIU é contraindicado (categoria 4) (2).

• Ácido tranexâmico: no sangramento agudo volumoso, 250 mg, 2 a 3 comprimidos, 3 a 4 vezes ao dia, por 3 a 4 dias, sobretudo quando houver contraindicação ao tratamento hormonal (1);

• Anti-inflamatórios não esteroidais durante o sangramento, quando não houver contraindicação (1);

• Progestagênios orais em esquema contínuo ou cíclico prolongado (1);

• Contraceptivos combinados com etinilestradiol: reavaliar a partir dos 50 anos; contraindicados em fumantes de 35 anos ou mais (≥ 15 cigarros/dia), hipertensão grave, enxaqueca com aura e história de doença cardiovascular ou tromboembolismo (2);

• Tratar a anemia ferropriva, quando presente.

3. Quando encaminhar e o que a atenção especializada pode oferecer

• Espessamento endometrial, lesão focal, biópsia alterada ou sangramento persistente apesar de ultrassonografia normal: (2);

• Antes da histerectomia, há alternativas cirúrgicas que preservam o útero, conforme a causa: ablação endometrial, polipectomia e miomectomia histeroscópicas

Orientações Práticas para a APS: 

Contribuições para os profissionais na APS: cabe à APS caracterizar o sangramento, solicitar os exames iniciais, tratar a anemia, iniciar ou ajustar o tratamento clínico, ofertar o DIU-LNG quando disponível e coordenar o cuidado com a ginecologia. Devemos fazer o acolhimento das crenças sobre feminilidade, sexualidade e menopausa, esclarecer dúvidas e apresentar todas as opções, com seus benefícios e riscos, respeitando a autonomia da paciente. A decisão sobre a histerectomia é dela, e a APS deve garantir que seja tomada com informação completa sobre as alternativas.

Codificação:

X06 — Menstruação excessiva

N92.4 — Sangramento excessivo no período pré-menopausa.

Referências:

1. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas: sangramento uterino anormal [recurso eletrônico]. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS; 2024. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/280087/001212756.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Coordenação-Geral de Saúde das Mulheres. Manual de atenção às mulheres na transição menopausal e menopausa [versão preliminar]. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2026.

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