
A Atenção Domiciliar (AD) é um modelo de atenção à saúde que possibilita a oferta do cuidado no domicílio do usuário e o conhecimento do ambiente familiar. A partir disso, permite a detecção de disfuncionalidades que impactam no bem-estar biopsicossocial de seus membros. A equipe prestadora desse serviço executa ações voltadas à promoção, prevenção, tratamento e reabilitação da saúde.1 Essa modalidade está interligada com as Redes de Atenção à Saúde (RAS), a fim de oferecer um cuidado integral.2
O perfil do usuário que necessita desse tipo de cuidado é aquele que se encontra restrito ao leito, ou ao lar, de forma transitória ou permanente, isto é, Pacientes com Necessidades Especiais (PNE), idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, em consequência da dificuldade de mobilidade e/ou deslocamento que inviabiliza o acesso a unidade de saúde.3
Na Atenção Primária à Saúde (APS), a Estratégia de Saúde da Família (ESF) é responsável por realizar os atendimentos domiciliares através das Equipes de Saúde da Família (eSF).4 Sendo compostas por profissionais de diversas áreas da saúde que viabilizam a AD, a oferta de um cuidado longitudinal e integral. Por conseguinte, resulta num conhecimento detalhado acerca do contexto de vida do usuário-família e do fortalecimento de vínculo entre os profissionais, a família e o paciente.5
A inserção do Cirurgião-dentista (CD) na eSF se deu através do Brasil Sorridente, Política Nacional de Saúde Bucal (2004) que preconiza o direito a todos os cidadãos terem acesso à cuidados de saúde bucal.6 Nesse cenário, o CD enfrentou alguns desafios de ruptura dos modos de atuação, uma vez que, ser CD deixou de ser uma atividade resumida ao atendimento em consultório odontológico e passou a ser também uma atividade pautada na coletividade e ações territoriais.7 Portanto, se faz útil e necessária a presença do CD em visitas domiciliares, haja vista, que o cuidado deve ser prestado de forma integral e apenas um profissional de saúde não supre todas as demandas do usuário.8
O CD é responsável por garantir a assistência em saúde bucal na AD, por meio de um conjunto de ações de educação em saúde, orientações sobre autocuidado, prevenção e assistência odontológica realizada no domicílio.6 Possibilitando, também, o desenvolvimento da autonomia e autocuidado durante as visitas domiciliares.
É competência do CD a realização da anamnese, exame físico, inspeção oral para diagnóstico precoce de câncer bucal e elaboração de um plano de tratamento de acordo com as necessidades do usuário. Ademais, pode-se executar procedimentos simples como orientação de higiene bucal, escovação supervisionada, remoção de sutura, raspagem supragengival, profilaxia, restaurações e algumas exodontias. Todavia, a execução de grande parte desses procedimentos só é possível mediante o uso do consultório odontológico portátil e uma configuração domiciliar que garante a biossegurança.6
O consultório odontológico portátil é um dispositivo tecnológico, de fácil instalação e manipulação que permite ao CD a realização de diversos procedimentos em ambiente domiciliar, ou, em zonas de difícil acesso, como áreas rurais e fluviais.8 O mesmo, possui um compressor integrado, caneta de alta rotação e baixa rotação, sugador, seringa tríplice e cavitador sônico, acoplado numa estrutura que possui puxador e rodas que facilitam o deslocamento.
Para utilização deste equipamento exige que a infraestrutura domiciliar possua uma área ampla e com circulação de ar, devido a produção de aerossóis e o risco de contaminação.9 Para além disso, é necessário que comporte a voltagem do aparelho e tenha fonte de energia com entrada compatível.
Se faz necessário que durante a organização para o atendimento domiciliar, o CD e o auxiliar de saúde bucal realizem uma lista de checagem de itens indispensáveis como: garrafa pet, saco de lixo, sugador, equipamentos de proteção individual, lanterna de cabeça, espelho bucal, pinça clínica, sonda exploradora, dentre outros materiais específicos, para que facilite o processo de trabalho durante o procedimento.
O uso do consultório odontológico portátil na AD facilita o acesso da população domiciliada aos cuidados de saúde bucal e permite que seja sanada demandas que antes necessitariam de deslocamento do paciente. Em suma, esse equipamento é uma estratégia eficiente e resolutiva para melhorar a condição de saúde bucal dessa população, consequentemente, eleva a qualidade de vida, satisfação e vinculação.8,10 Reduzindo também a sobrecarga a do fluxo de atendimento em consultório.
Currículo: Nicole Beatriz Cerqueira Santana – Cirurgiã-dentista graduada pela Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia (FOUFBA) e Residente Multiprofissional em Saúde da Família pela FESF-SUS/BA.
REFERÊNCIAS
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Caderno de Atenção Domiciliar. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 2 v.
- PROCÓPIO, Laiane Claudia Rodrigues et al. A Atenção Domiciliar no âmbito do Sistema Único de Saúde: desafios e potencialidades. Saúde em Debate, v. 43, n. 121, p. 592-604, abr. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0103-1104201912123. Acesso em: 23 maio 2025.
- Dias JC, Pereira C, Castro M, Camila Araújo Pinto, Abreu D, Wilson Gustavo Cral. Perspectivas gerais da odontologia domiciliar: uma revisão de literatura. Brazilian Journal of Health Review [Internet]. 2024 Jul 15 [cited 2024 Aug 4];7(4):e71223–3. Available from: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/71223
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção à Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. 4. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. 68 p.
- CARIBÉ DA SILVA, Janaina et al. Atuação de cirurgiã-dentista, na atenção domiciliar, a idoso restrito ao leito. JMPHC | Journal of Management & Primary Health Care | ISSN 2179-6750, v. 15, p. e003, 6 mar. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.14295/jmphc.v15.1194. Acesso em: 23 maio 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. A saúde bucal no Sistema Único de Saúde [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 350 p.
- GONÇALVES, Evelise Ribeiro; RAMOS, Flávia Regina Souza. O trabalho do cirurgião-dentista na estratégia de saúde da família: potenciais e limites na luta por um novo modelo de assistência. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 14, n. 33, p. 301-314, jun. 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1590/s1414-32832010000200006. Acesso em: 23 maio 2025.
- FERREIRA, Marceli Dias et al. Atenção Multiprofissional e o uso do Consultório Odontológico Portátil na Assistência Domiciliar ao paciente Idoso. Brazilian Journal of Development, v. 5, n. 12, p. 31642-31652, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.34117/bjdv5n12-253. Acesso em: 23 maio 2025.
- BATISTI, Daniella Londero Silva et al. RISCO DE CONTAMINAÇÃO POR AEROSSÓIS EM CONSULTÓRIO ODONTOLÓGICO E COMPARAÇÃO A PROCEDIMENTOS ELETIVOS. Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR, v. 27, n. 10, p. 5898-5917, 23 out. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.25110/arqsaude.v27i10.2023-028. Acesso em: 23 maio 2025.
- ARAUJO, Diogo Alves de et al. Uso de consultórios odontológicos portáteis no atendimento em instituições de longa permanência: relato de experiência. REVISTA DO CROMG, v. 22, Supl.3, 25 jan. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.61217/rcromg.v22.430. Acesso em: 23 maio 2025.