Atendimento odontológico a pacientes hipertensos

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Andressa Chang – Cirurgiã-dentista

A hipertensão arterial sistêmica (HAS), também chamada de “pressão alta”, é um problema multifatorial que engloba elementos genéticos, ambientais e sociais. Ela se distingue pelo aumento contínuo dos níveis de pressão arterial, mesmo quando se encontra em repouso, evidenciado por valores elevados de pressão arterial sistólica e/ou diastólica (BARROSO et al., 2020; QUEIROZ; GUEDES, 2021).

De acordo com a Sociedade Brasileira de Hipertensão (2020), aproximadamente 30% da população adulta no Brasil sofre de HAS. A condição é responsável por mais de 7 milhões de mortes anualmente, sendo um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares (QUEIROZ; GUEDES, 2021). As diretrizes atualizadas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em 2020 estabeleceram as classificações de pressão arterial: valores inferiores a 120 mmHg de pressão sistólica e 80 mmHg de diastólica são considerados normais. A pré-hipertensão apresenta valores entre 130-139 mmHg (sistólica) e/ou 85-89 mmHg (diastólica), enquanto a hipertensão de estágio 1 e 2 envolve valores entre 140-159 mmHg e acima de 160 mmHg para a pressão sistólica, respectivamente.

No contexto odontológico, é essencial que o cirurgião-dentista (CD) conheça detalhadamente o histórico de saúde e hábitos dos pacientes antes de qualquer procedimento. A classificação ASA, desenvolvida pela Sociedade Americana de Anestesiologia, é um método de avaliação do estado físico do paciente. Pacientes ASA I (saudáveis) e ASA II (com comorbidades leves) podem ser atendidos em nível ambulatorial. No entanto, a partir da classificação ASA III (alterações sistêmicas graves), é necessário atendimento em ambiente hospitalar (ANDRADE et al., 2021).

O uso de medicamentos anti-hipertensivos requer atenção especial, pois pode gerar efeitos colaterais como xerostomia, hiperplasia gengival e outras alterações bucais (SOUZA et al., 2019). Após a anamnese, o CD deve planejar o tratamento considerando possíveis complicações, como infarto agudo do miocárdio e arritmias, que podem ocorrer em decorrência de um planejamento inadequado (FERRARI et al., 2017).

A ansiedade é um fator relevante durante o atendimento odontológico de pacientes hipertensos, uma vez que pode elevar a pressão arterial e desencadear crises hipertensivas. Assim, o CD deve estabelecer uma relação de confiança com o paciente, esclarecer o plano de tratamento e, se necessário, solicitar um parecer médico para uma avaliação mais completa (SOUTERLHAND et al., 2016; CANAPELLE et al., 2017; SILVA et al., 2017). Em procedimentos invasivos, pode ser utilizada a sedação consciente com ansiolíticos ou óxido nitroso (SOUTERLHAND et al., 2016).  Durante as consultas, é fundamental monitorar os sinais vitais, especialmente a pressão arterial, para detectar rapidamente qualquer alteração significativa (SPEZZA; MOURA, 2017; RODRIGUES et al., 2017).

A anestesia local em pacientes hipertensos é usada como sedação mínima para controlar a ansiedade e garantir a ausência de dor, sendo mais eficaz com soluções que contêm vasoconstritores, como a epinefrina, que também melhora o controle da hemostasia e reduz o sangramento e o tempo de intervenção. Em pacientes com controle adequado da hipertensão, a epinefrina em baixas concentrações é segura, com um limite de 0,04 mg por sessão, equivalente a 2 tubetes de solução 1:100.000. Para casos em que a epinefrina é contraindicada, como em arritmias, o CD pode usar prilocaína com felipressina (até 0,18 UI) ou uma anestesia sem vasoconstritor, como a mepivacaína, para procedimentos de menor necessidade hemostática (MALAMED, 2013; ANDRADE, 2014).

No que se refere à interação medicamentosa, Anti-inflamatórios Não Esteroidais (AINEs) podem interferir na eficácia de medicamentos anti-hipertensivos. O paracetamol é a opção mais indicada para pacientes hipertensos em tratamentos odontológicos de curto prazo (máximo de 5 dias), pois o uso prolongado pode elevar a pressão arterial. Outros AINEs, como ibuprofeno e diclofenaco, podem promover vasoconstrição renal e retenção de sódio, mas seu uso breve, de 3 a 5 dias, geralmente não compromete significativamente a pressão arterial (SOUSA et al., 2019).

As emergências hipertensivas, como crises hipertensivas, decorrem do descontrole da pressão arterial, com sintomas como tontura, mal-estar e falta de ar. Nesses casos, a redução da pressão deve ser gradual e não deve exceder 25% em duas horas. O CD deve adotar medidas preventivas, como a verificação regular da pressão arterial e do pulso, interrompendo o atendimento e solicitando auxílio médico quando necessário (ANDRADE, 2014).

O atendimento odontológico de pacientes hipertensos exige uma abordagem cuidadosa e planejada, considerando as condições de saúde do paciente e as possíveis interações medicamentosas. A monitorização constante da pressão arterial, o controle da ansiedade e a escolha adequada dos medicamentos e anestésicos são fundamentais para garantir um tratamento seguro e eficaz. Com um planejamento detalhado e conhecimento sobre as particularidades dos pacientes hipertensos, é possível minimizar riscos e promover um atendimento de qualidade.

Andressa Chang Rodrigues Fernandes da Silva – Cirurgiã-dentista, professora universitária, pós-graduada em Saúde Coletiva com ênfase em doenças cardiovasculares, mestra e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Odontologia e Saúde da Universidade Federal da Bahia.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Eduardo D. Terapêutica medicamentosa em odontologia. 3rd ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2014. E-book. p.189.

ANDRADE, Juliana Santana et al. Protocolo de atendimento odontológico em pacientes com múltiplas desordens sistêmicas: revisão de literatura. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 13, n. 1, p. e5940-e5940, 2021.

BARROSO, W. K. S. et al. Diretrizes brasileiras de hipertensão arterial – 2020. Arquivo Brasileiro de Cardiologia, v.116, n.3, p. 516-658, 2020.

CANEPPELE, T.M.F. et al.  Conhecimento dos cirurgiões-dentistas sobre o atendimento   de   pacientes   especiais:   hipertensos, diabéticos  e   gestantes. Journal   of Biodentistry and Biomaterials, 2017.

FERRARI, D.C. et al. Hipertensão arterial sistêmica no atendimento odontológico: manejo cirúrgico–relato de caso. Ação Odonto, n. 2, 2017. 

MALAMED, F. Manual de anestesia local – farmacologia dos anestésicos locais e farmacologia dos vasoconstritores. 6a Ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2013, p.27-54.

QUEIRÓZ, A.A.;   GUEDES, C.C.F.V.   Cuidados odontológicos com pacientes hipertensos. Scientia Generalis, v. 2, n. Supl. 1, p. 3-3, 2021.

RODRIGUES, C.S. et al. Avaliação da variação da pressão arterial em pacientes submetidos a tratamento odontológico. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo, v. 25, n. 3, p. 196-202, 2017. 

SILVA, A.S. et al. Regulação da ansiedade e medo e implicações na odontologia. Ação Odonto, n. 1, 2017.

SOUSA, I. T. C.; PESTANA, A.M.; ARAUJO, M.A.R.  Implicações   clínicas   do   uso   de   aines em   pacientes   hipertensos:   interações medicamentosas na odontologia. Rev Bras Hipertens; v.26, n.3, p.91-96, 2019.

SOUZA, A.C.M.  et al.  Abordagem e cuidados do cirurgião dentista em pacientes com hipertensão arterial. Caderno de Graduação-Ciências Biológicas e da Saúde-UNIT-PERNAMBUCO, v. 4, n. 2, p. 59-59, 2019.

SOUTHERLAND, J. H. et al. Dental management in patients with hypertension: challenges and solutions. Clinical, cosmetic and investigational dentistry, v. 8, p. 111, 2016. SPEZZIA, S.; MOURA, R.C. Atendimento Odontológico em Hipertensos. Journal of Health Sciences, v. 19, n. 1, p. 43-46, 2017.

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