A atuação do cirurgião-dentista na Estratégia de Saúde da Família

Ingrid Dantas Pimentel  

Enfermeira Residente de Saúde da Família  

Instituição: UNEB 

 

A Estratégia Saúde da Família (ESF) é o modelo assistencial brasileiro para a reorganização da Atenção Primária à Saúde (APS), cujo propósito central é instituir a integralidade do cuidado. Para alcançar essa integralidade e superar a fragmentação histórica das práticas de saúde, é imprescindível a adoção de uma abordagem interprofissional e colaborativa (1). 

Nesse contexto, a atuação do cirurgião-dentista (CD) na ESF transcende o atendimento clínico tradicional, ampliando seu escopo para coordenar ações coletivas de promoção e prevenção em saúde bucal, realizar visitas domiciliares, desenvolver atividades educativas e treinar a equipe, substituindo um modelo curativo por práticas contínuas e centradas na efetividade (2). 

O trabalho interprofissional na ESF é pautado pelo atendimento compartilhado e pela gestão participativa, sendo pilares para a qualificação do cuidado. A articulação entre o CD e os demais membros da equipe mínima como médicos, enfermeiros e Agentes Comunitários de Saúde (ACS) é fundamental para o acolhimento qualificado, a corresponsabilização e a resolutividade das ações (3,4). 

Para isso, o CD deve integrar-se ativamente às reuniões de equipe, ao planejamento coletivo e à construção de fluxos de cuidado. Essa prática colaborativa, baseada na interdependência e na construção de objetivos comuns, supera a individualização biomédica, aproximando o cuidado da realidade do usuário e da comunidade (5).  

A territorialização é um eixo crucial que orienta a atuação interprofissional. Ela permite conhecer as características sociais, econômicas e culturais da população, resultando em ações mais adequadas e resolutivas (6). O Agente Comunitário de Saúde, devido à sua proximidade com a comunidade, possui um papel estratégico: identifica vulnerabilidades em saúde bucal, necessidades de atendimentos odontológicos, promove saúde bucal na comunidade e articula ações educativas e visitas domiciliares sob a supervisão do CD (7). 

Essa integração permite uma atuação mais próxima das comunidades, favorecendo o reconhecimento de vulnerabilidades locais e a construção de respostas mais adequadas às necessidades da população. 

A título de exemplificação, tem-se o pré-natal odontológico que é uma prioridade na APS, com o CD integrando-se à Equipe de Saúde da Família para realizar a busca ativa, avaliação e educação em saúde bucal da gestante. A integração é reforçada pela necessidade de desmistificar o tratamento dentário na gravidez e promover a saúde materno-infantil (8). 

Pode-se citar também a puericultura, a integração do CD é fundamental para a atuação interdisciplinar na prevenção de doenças bucais em bebês e crianças. O CD além do atendimento, orienta sobre dieta e higiene, trabalhando em conjunto com a equipe para garantir a saúde geral da criança, reconhecendo a cárie como preditor de risco (9). 

A educação em saúde constitui um dos pilares centrais da atuação integrada, visando promover o autocuidado, e deve ser desenvolvida tanto nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) quanto em espaços comunitários. O CD, nesse contexto, não deve se restringir à saúde bucal: sua participação é valiosa em atividades educativas e grupos sobre diversas temáticas, como gestação, doenças crônicas e alimentação saudável, contribuindo de forma integral para a saúde da população (10). 

O Programa Saúde na Escola (PSE) é a materialização da ação intersetorial entre saúde e educação. O CD da ESF é um profissional-chave no programa, responsável por levar a educação e a prevenção em saúde bucal para o ambiente escolar, trabalhando em conjunto com os professores e a equipe de saúde escolar (11). 

O investimento em educação permanente é reconhecido como fundamental para que o CD e a equipe se mantenham alinhados com a missão do Sistema Único de Saúde (SUS). A Educação Permanente em Saúde (EPS) promove a atualização, a troca de experiências interprofissionais e a reflexão sobre o trabalho, combatendo a fragmentação e buscando a qualificação do cuidado (12). 

  

 

REFERÊNCIAS 

 

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Estratégia Saúde da Família. Brasília: Ministério da Saúde, [2025?]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf. Acesso em: 20 out. 2025. 
  1. SILVA, Andreza Andrade Moura; NASCIMENTO, Cynthia Maria Barboza do; MELO, Márcia Maria Dantas Cabral de. Análise do trabalho das equipes de saúde bucal na perspectiva interprofissionalRevista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, Uberaba, v. 9, n. 3, p. 585–597, 2021. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/4979/497970304008/html/. Acesso em: 20 out. 2025. 
  1. OLIVEIRA, Millane Teles Portela de et al. Os desafios e as potencialidades da saúde bucal na Estratégia Saúde da Família: uma análise dos processos de trabalho. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 32, p. e320106, 2022. 
  1. GURGEL FILHO, Artur Antônio Guedes; DO AMARAL, Regiane Cristina. O papel do cirurgião dentista na equipe multiprofissional da Atenção Básica em Saúde, após 19 anos de sua implantação. Archives of Health Investigation, v. 10, n. 8, p. 1287-1291, 2021. 
  1. GODOI, Nadeli Laryssa da Silva. O cirurgião-dentista e o trabalho interprofissional na Estratégia Saúde da Família. 2022. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 
  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. A saúde bucal no Sistema Único de Saúde [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 
  1. TELESSAÚDE BAHIA. Agente Comunitário de Saúde na promoção da saúde bucal: qual o seu papel? Salvador: Telessaúde Bahia, 2024. Disponível em: https://telessaude.saude.ba.gov.br/wp-content/uploads/2024/07/Telessaude-BA-Manuela-e-Joao.pdf. . Acesso em: 20 out. 2025. 
  1. CONCEIÇÃO, Verbênia Silva; MOREIRA, Marcela Beatriz Aguiar. Atuação de cirurgiã-dentista, com ênfase no pré-natal, na atenção primária: relato de experiência. Revista Baiana de Saúde Pública, v. 46, n. 2, p. 199-212, 2022. 
  1. DE SOUZA MARTINS, Geórgia Moura; DE CARVALHO, Maria Luíza Rocha Barreto. ATUAÇÃO INTERPROFISSIONAL DA ODONTOLOGIA NA PUERICULTURA. Cadernos ESP, v. 19, n. 1, p. e2081-e2081, 2025. 
  1. BROCKVELD, Lucimeire de Sales Magalhães; VENANCIO, Sonia Isoyama. Avanços e desafios na formação do cirurgião-dentista para sua inserção nas práticas de promoção da saúde. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 30, n. 03, p. e300326, 2020. 
  1. SOUSA, Gilmara Araújo de; RODRIGUES, Amykaelle Karityanne Bezerra; RIBEIRO, Pedro José Targino; SILVA, Frank Gigiane Texeixa e; LOPES, Natália Vitória de Araújo; CAROLINO, Rodolfo de Abreu. Ações em saúde bucal no Programa Saúde na Escola em uma cidade do interior da Paraíba. Revista Interdisciplinar em Saúde, v. 9, n. 1, p. 40–50, 2022. Disponível em: https://www.interdisciplinaremsaude.com.br/Volume_30/Trabalho_03_2022.pdf. Acesso em: 20 out. 2025. 
  1. ALMEIDA, Janaína Rocha de Sousa et al. A Política Nacional de Educação Permanente em Saúde e sua relação com a odontologia. Cadernos Saúde Coletiva, v. 30, n. 4, p. 507-516, 2022. 

 

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