Uma perspectiva multiprofissional do pré-natal na Atenção Básica.

Alice Mota Lima*

O acompanhamento pré-natal configura papel essencial na prevenção e/ou detecção precoce de patologias maternas e fetais, possibilitando desenvolvimento saudável do bebê e minimizando riscos à gestante. É o momento de intercâmbio de experiências e conhecimentos, promovendo espaço para diálogo, vinculação e compreensão do processo gestacional¹.

É imprescindível reconhecer a gestante como ser de direitos, com família, vivências e cultura, assim como compreender que tais questões podem interferir na adesão aos cuidados de saúde. Logo, é dever da Atenção Primária à Saúde fortalecer seu papel enquanto porta de entrada, a fim de garantir o acesso e a continuidade do pré-natal, sendo, também, incentivadora do empoderamento das mulheres para que estas sejam protagonistas de suas histórias².

O acompanhamento durante o ciclo gravídico objetiva assegurar o desenvolvimento da gestação, permitindo o parto de um recém-nascido saudável, sem impacto para a saúde materna. O CAB nº 32 – Assistência Pré-natal de Baixo Risco3 aborda passos para a qualificação da assistência na Atenção Básica. Estes versam sobre a promoção de escuta qualificada, acompanhamento do parceiro, garantia de direitos e recursos necessários ao atendimento, solicitação e avaliação de exames preconizados em momento oportuno. A captação precoce da gestante é o passo inicial, devendo ocorrer a identificação e início do pré-natal na APS até a 12ª semana de gestação3.

Sob essa perspectiva, a enfermagem apresenta atuação imprescindível na prestação de assistência humanizada desde o início da gravidez. Seu cuidado busca propiciar condições para promoção da saúde e melhoria da qualidade de vida da gestante, respeitando os determinantes sociais que a envolvem a partir de mediação participativa e contextualizada4. Ademais, promove orientações e espaço educativo, bem como diagnóstico e tratamento de afecções que podem ocorrer durante o período gestacional4.

O enfermeiro deve realizar as consultas de pré-natal de baixo risco intercaladas com consultas médicas3. É oportuno que a primeira consulta seja realizada por ele devido à necessidade de compreensão de questões relativas ao contexto a que a gestante está inserida, escuta qualificada e promoção de vínculo. Ademais, orientações sobre a importância da continuidade do pré-natal, alterações fisiológicas, amamentação e vacinação devem ocorrer ao longo do acompanhamento.  A busca ativa de gestantes faltosas deve ser continuamente realizada, compreendendo os motivos que as fizeram desistir do seguimento.3

Solicitar exames complementares e prescrever medicamentos conforme protocolo local, bem como realizar testes rápidos e encaminhamentos dentro da própria unidade ou, se necessário, outros pontos da rede também são atribuições da enfermagem.  O acompanhamento pré-natal de alto risco não exclui a necessidade de manutenção do cuidado ao risco habitual dentro da atenção básica, logo, é preciso firmar a importância do atendimento nos dois serviços a fim de não ter perda na vinculação e longitudinalidade. Vale ressaltar a importância do rastreamento para câncer de colo de útero e mama, a partir do exame citopatológico do colo de útero e exame clínico das mamas – conforme indicações de tal rastreio3.

A comunicação dentro da equipe multiprofissional é ferramenta de diálogo, humanização e fortalecimento da integralidade. Uma vez que é preciso ampliar o olhar para a mulher como um todo, abrangendo questões que vão além da sua saúde sexual e reprodutiva, a enfermagem é fundamental na discussão e elaboração de planos de cuidado juntamente aos profissionais que integram a equipe de saúde.2,5 Tratando-se da união entre enfermagem e odontologia, o encaminhamento para realização do pré-natal odontológico deve ser feito com o objetivo de prevenir e promover ações de saúde bucal, evitando intensificação de quadros que possam promover riscos à saúde materna e fetal.6

As gestantes devem ser inseridas na rotina do pré-natal odontológico para que recebam consultas regulares de manutenção, controle de possíveis focos de infecção, tratamento de doenças bucais, orientação de dieta e de higiene oral, além de acompanhamento no território. (6)

A equipe de saúde bucal deve estar preparada para realizar uma boa anamnese e exame físico no objetivo de buscar informações sobre possíveis riscos na gravidez e período gestacional, presença de doenças ou alterações sistêmicas concomitantes visando a elaboração do melhor plano de tratamento possível.6 Também deve estar ciente de que é necessário avaliar sinais vitais antes de todos os atendimentos e evoluir no prontuário.6

As intervenções odontológicas devem ser realizadas preferencialmente no segundo trimestre gestacional – por se tratar de um período de maior estabilidade. No entanto, urgências podem ser realizadas em qualquer período, pois entende-se que a presença de infecção e dor podem causar danos para mãe e feto como, por exemplo, o parto prematuro.6,7,8

A realização do pré-natal odontológico tem como objetivo melhorar não somente a condição de saúde geral da mãe, mas também contribuir com a saúde do bebê. 6 É necessário que nas consultas a importância do cuidado odontológico materno-infantil seja explicado a gestante.8

Uma vez que a família tem papel importantíssimo nos padrões de comportamento aprendidos na primeira infância, ações educativas e preventivas realizadas com as gestantes têm o potencial de propiciar a introdução de bons hábitos desde o início da vida da criança.6,9

A garantia do pré-natal odontológico demonstra a capacidade de coordenação do cuidado entre equipe de saúde da família e equipe de saúde bucal.10 A marcação da consulta com o dentista deve acontecer preferencialmente no momento do primeiro contato da equipe de saúde com a gestante. É necessário que existam vagas abertas na agenda do cirurgião-dentista destinadas à essas usuárias. Um canal de comunicação direta entre as equipes pode facilitar a comunicação sobre o encaminhamento desse grupo de pacientes.10,11

É necessário que as equipes de saúde trabalhem de forma articulada, encaminhando a gestante para consulta com o dentista ao iniciar o pré-natal – conduta geralmente realizada pelo enfermeiro. No mínimo uma consulta odontológica deve ser garantida, mas outros atendimentos podem ser realizados a depender das necessidades individuais apresentadas.6

Cirurgiões-dentistas e enfermeiros podem trabalhar em conjunto na construção de atividades de educação em saúde abordando temáticas relevantes para o empoderamento e autocuidado da gestante, além da atenção à saúde do parceiro – através do pré-natal do parceiro – e cuidados com a criança.5

O trabalho multiprofissional possibilita um pré-natal mais humanizado e com olhar ampliado frente à subjetividade e singularidade das mulheres².  A atenção e cuidado qualificado durante o período gravídico exige a participação e comprometimento de uma equipe integrada internamente e com os serviços que prestam cuidados na atenção secundária e terciária.12

REFERÊNCIAS

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Importância do pré-natal.Biblioteca Virtual em Saúde. 2016. Disponível em <https://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/2198-importancia-do-pre-natal#:~:text=A%20realização%20do%20pré-natal,reduzindo%20os%20riscos%20da%20gestante> Acesso em 08 jun 2021.
  2. FRANCO, Raiza Verônica Almeida Barbosa et al. Pré-natal realizado por equipe multiprofissional da atenção primária à saúde. Cadernos ESP-Revista Científica da Escola de Saúde Pública do Ceará, v. 14, n. 1, p. 63-70, 2020.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Pré-natal e puerpério: atenção qualificada e humanizada. Série Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos – Caderno nº 5. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília – DF, 2006. Disponível em <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_pre_natal_puerperio_3ed.pdf> Acesso em 08 jun 2021.
  • FAQUIM, Juliana Pereira da Silva; FRAZÃO, Paulo. Percepções e atitudes sobre relações interprofissionais na assistência odontológica durante o pré-natal. Saúde em Debate, v. 40, p. 59-69, 2016.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. A saúde bucal no Sistema Único de Saúde. Brasília, 2018.
  • DE ANDRADE, Eduardo Dias. Terapêutica medicamentosa em odontologia. Artes Médicas Editora, 2014.
  • DA SILVA, Mara Elaine Alves; SANCHEZ, Heriberto Fiuza. Proposta de protocolo clínico para atendimento odontológico a gestantes na atenção primária à saúde. Revista de APS, v. 20, n. 4, 2017.
  • RAMOS, Germana Martins Sá et al. Pregnant women’s knowledge of baby’s oral health in a basic health unit, Fortaleza, Brazil. Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clínica Integrada, v. 14, n. 3, p. 239-248, 2014.
  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Previne Brasil. Documento Orientador: Como a equipe de saúde da família pode melhorar os indicadores de desempenho. Brasília/DF, 2019. Disponível em: <https://aps.saude.gov.br/gestor/financiamento/pagamentodesempenho/> Acesso em 27 mai 2021.
  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica Nº 5/2020-DESF/SAPS/MS. Indicadores de pagamento por desempenho do Programa Previne Brasil (2020). Brasília/DF, 2020. Disponível em: <https://aps.saude.gov.br/gestor/financiamento/pagamentodesempenho/> Acesso em 27 mai 2021.
  1. GUERREIRO, Eryjosy Marculino et al. O cuidado pré-natal na atenção básica de saúde sob o olhar de gestantes e enfermeiros. Revista Mineira de Enfermagem, v. 16, n. 3, p. 315-323, 2012.

 

Colunistas:

Alice Mota Lima* – Contato: alice_mota01@hotmail.com

Layla Thamires de Caetano Fernandes – Contato: laylathamires@hotmail.com


Currículo das colunistas:

Cirurgiã-Dentista graduada pela Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia (FOUFBA). Residente Multiprofissional em Saúde da Família pela FESF-SUS.

Enfermeira graduada pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (EEUFBA). Residente Multiprofissional em Saúde da Família pela FESF-SUS.

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