Nutrição e saúde bucal em idosos

*Jeisielle Barreto

Em quase todos os países, a proporção de pessoas com mais de 60 anos está crescendo rapidamente, sendo resultante do aumento da taxa de expectativa de vida e redução das taxas de fecundidade. No Brasil, o número de idosos com 60 anos ou mais passou de 3 milhões, em 1960, para 14 milhões, em 2002, e a expectativa de vida aumentou cerca de 9 anos em pouco mais de meio século. Trata-se de um ganho de sobrevida generalizado que, apesar de se dar de forma heterogênea nas diferentes regiões do país, remete à necessidade do aprofundamento de estudos voltados para a saúde do idoso (CAMARGOS, et al., 2019).

Em paralelo, às modificações observadas na pirâmide populacional, doenças próprias do envelhecimento, passaram a ganhar maior expressão e a ocupar uma demanda crescente nos serviços de saúde. Doenças degenerativas, físicas, mentais e cognitivas fazem parte dos desafios que muitos idosos enfrentam, sendo a desnutrição citada como um importante fator desencadeante e/ou agravante. A nutrição, importante fator para a promoção de saúde e qualidade de vida, pode sofrer influência da diminuição do desempenho mastigatório, da diminuição do paladar e dificuldade para deglutir, sendo necessário compreender a sua relação com a saúde bucal (BANERJEE, et al., 2018).

De um modo geral, a boca influencia na função fisiológica, psicológica e social dos indivíduos, sendo considerada um indicador precoce de saúde geral e estado nutricional. Muitos problemas de saúde manifestam-se inicialmente na boca e sofrem influência desta em seu curso clínico e patológico. São exemplos de patologias que frequentemente acometem pacientes idosos: estomatite protética, nevo pigmentado, hiperplasias e, em menor proporção, queilite angular, hemangioma, lipoma, fibroma e leucoplasia. A perda dos dentes, bem como o uso de próteses atreladas à má higiene oral favorecem a instalação de processos infecciosos e comprometem significativamente a capacidade mastigatória e nutrição (MOURA, et al., 2016).

A má nutrição em idosos está relacionada à diminuição das habilidades funcionais (redução do paladar, olfato, perda dos dentes e xerostomia), bem como ao aumento da susceptibilidade às infecções e internações (CASSAL, 2008). A anorexia é vista como uma das principais causas de desnutrição, sendo fundamental o diagnóstico e identificação de indicadores que compõem a avaliação nutricional do indivíduo. Compreendendo esse processo, cabe aos profissionais da saúde atuarem em uma rede multiprofissional e articulada, enxergando o paciente idoso em suas múltiplas singularidades e pautando sua prática clínica na percepção de que nem todas as alterações que ocorrem em idosos são resultantes do processo de envelhecimento, já que diversos agravos podem ser identificados precocemente ou mesmo prevenidos (COUSSON, et al., 2012).

A perda dentária é considerada um dos principais agravos em saúde bucal, sendo resultante de fatores como cárie, doença periodontal, traumatismos, dificuldade de acesso e precariedade dos serviços, além da escassez de informações quanto à importância de possuir uma dentição adequada para manutenção da boa qualidade de vida (KSHETRIMAYUM, et al., 2012). A literatura evidencia que pacientes edêntulos tendem a escolher alimentos cozidos ou processados, ao invés de alimentos frescos, e frequentemente eliminam da dieta os vegetais e grupos alimentares mais fibrosos, aumentando o consumo de colesterol, gorduras saturadas e calorias. Como exemplo, um estudo de avaliação do efeito do estado nutricional e da ingestão alimentar na qualidade de vida relacionada à saúde bucal de 200 idosos institucionalizados observou que cerca de 80,0% dos participantes tiveram dificuldade para morder ou mastigar qualquer tipo de alimento, como carne ou maçã, partindo para uma escolha inadequada de alimentos (BANERJEE, et al., 2018).

Outros fatores relacionados à interface da saúde bucal e nutrição são: pobreza, isolamento social, depressão, solidão e abandono. Os idosos são mais propensos a experimentar eventos como luto ou deficiência física que afetam o bem-estar emocional e interferem no autocuidado. Compreende-se, portanto, que saúde bucal e alimentação possuem uma intensa relação com fatores sociais, requerendo a criação e fortalecimento das políticas públicas existentes para esse grupo (CHOUFANI, et al., 2020).

Nessa perspectiva, destaca-se a importância da integração entre Odontologia e Nutrição, especialmente na prevenção da perda dental, reabilitação protética e manutenção de uma boa condição bucal que assegure uma dieta adequada. Ferramentas como interconsulta e consulta compartilhada podem ser empregadas durante o manejo de pacientes idosos, rastreando indicadores de vulnerabilidade, fragilidades e desenvolvendo em conjunto mecanismos de intervenção (BARRETO, et al., 2019).

A Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como um campo extremamente potente para o desenvolvimento de ações voltadas à resolução dos problemas de saúde existentes na comunidade assistida, já que, aponta para a necessidade do trabalho em equipe, promovendo a junção dos olhares de diferentes categorias profissionais. A APS favorece a interdisciplinaridade e proporciona a atenção integral aos indivíduos (MESAS, et al., 2010; BARRETO, et al., 2019), permitindo a construção de abordagens assistenciais e educativas, pautadas na perspectiva da humanização do cuidado e no protagonismo dos sujeitos.

O diálogo entre a Odontologia e Nutrição é facilitado no contexto da APS, uma vez que, a Equipe de Saúde Bucal (ESB) está inserida no espaço da Atenção Primária, juntamente com a retaguarda especializada dos profissionais da Nutrição. A construção conjunta de ações voltadas para a saúde do idoso possibilita a reorientação do modelo assistencial em saúde e a oferta de serviços, considerando as demandas específicas dos usuários. Sendo assim, o fortalecimento da APS e incentivo à interdisciplinaridade são essenciais para a melhoria das condições de saúde, promoção de qualidade de vida e redução de iniquidades (CHOUFANI, et al., 2020).

Colunistas:

*Jeisielle Alves da Anunciação Barreto. Cirurgiã Dentista Residente/ FESF-SUS (FIOCRUZ)

Revisão: Suzana Costa Carvalho Néri. Sanitarista – SESAB/SAIS/DGC

Referências

BANERJEE, R. et al. Evaluation of relationship between nutritional status and oral health related quality of life in complete denture wearers. Indian J Dent Res. 2018 Sep-Oct;29(5):562-567. doi: 10.4103/ijdr.IJDR_285_17. PMID: 30409933.

BARRETO, A. C. O. Et al. Percepção da equipe multiprofissional da Atenção Primária sobre educação em saúde Rev Bras Enferm [Internet]. 2019;72(Suppl 1):278-85.

CAMARGOS, M. C. S. et al. Estimativas de expectativa de vida livre de incapacidade funcional para Brasil e Grandes Regiões, 1998 e 2013. Ciênc. saúde colet. 24 (3) Mar 2019. https://doi.org/10.1590/1413-81232018243.07612017

CASSAL, J. B. A influência das condições de saúde bucal do idoso no seu estado nutricional: uma revisão de literatura. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Especialização em Saúde Pública), Porto Alegre, 2008.

CHOUFANI A, Folliguet M, El-Osta N, Rammal S, Doumit M. Oral health status and care of institutionalized elderly individuals in Lebanon. Indian J Dent Res. 2020 Jul-Aug;31(4):507-514. doi: 10.4103/ijdr.IJDR_208_20. PMID: 33107448.

COUSSON, P. Y. et al. Nutritional status, dietary intake and oral quality of life in elderly complete denture wearers. Gerodontology. 2012 Jun;29(2):e685-92. doi: 10.1111/j.1741-2358.2011.00545.x. Epub 2011 Oct 17. PMID: 22004061.

KSHETRIMAYUM, N. et al. Oral health-related quality of life and nutritional status of institutionalized elderly population aged 60 years and above in Mysore City, India. Gerodontology. 2013 Jun;30(2):119-25. doi: 10.1111/j.1741-2358.2012.00651.x. Epub 2012 Feb 26. PMID: 22364560.

MESAS, A. E. et al. Saúde bucal e déficit nutricional em idosos não institucionalizados em Londrina, Paraná, Brasil. Rev Bras Epidemiol 2010; 13(3): 1-12.

MOURA, S. M. S. et al. Relação entre nutrição de idosos e dentição: Revisão de Literatura. Jornal Interdisciplinar de Biociências, v.1, n.1,2016.

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