Atenção multiprofissional ao paciente com fissura labiopalatina

*Eliane Barbosa de Souza

Compreendidas como uma malformação no desenvolvimento embrionário, de etiologia complexa, e não totalmente conhecida, a fenda labial e a fenda palatina representam alterações anatômicas e funcionais, que se caracterizam por descontinuidades ou aberturas que acometem as estruturas do lábio e/ou do palato, comprometendo a capacidade de alimentação e fala (1)(2).

Para crianças em aleitamento materno os prejuízos à amamentação estão ligados a dificuldade de se estabelecer uma adequada sucção, uma vez que a falta de fusão do palato, em especial naquelas que apresentam fissura pós-forame incisivo (envolvendo somente o palato) ou transforame (envolvendo lábio, rebordo alveolar, palatos duro e mole), interfere no adequado isolamento da cavidade oral e, por conseguinte, na obtenção de uma pressão negativa eficaz (1).

O tratamento das pessoas com fissuras labiopalatinas deve ser instituído em tempo hábil, logo após o nascimento, visando a reabilitação morfofuncional e psicossocial destes pacientes, a partir de uma perspectiva ampliada e abordagem multiprofissional.

Esse tratamento pode ser compreendido em três fases:

Pré-cirúrgica – período em que tal condição é identificada por profissionais devidamente habilitados, que tenham contato inicial com o paciente e que realizem os devidos encaminhamentos, podendo ser: enfermeiros, obstetras, pediatras e odontopediatras (3). A identificação do perfil socioeconômico, do paciente e de seus familiares, a rede de apoio e a interlocução com instituições assistenciais, deve subsidiar a atuação de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais. O desenvolvimento da fala é acompanhado pelo fonoaudiólogo; o acompanhamento com o otorrino deve ocorrer a cada seis meses, até que a audição se normalize. O fisioterapeuta irá auxiliar na reeducação da respiração do paciente, preparando-o para o ato cirúrgico.

Cirúrgica – período no qual procedimentos plásticos reparadores são iniciados a partir de um protocolo cirúrgico geral. Recomenda-se que: aos três meses de idade seja realizada a queiloplastia; aos 6-9 meses a palatoplastia; aos 5 anos o refinamento da cirurgia no nariz (em 35% dos casos); aos 7-9 anos o enxerto ósseo (em 100% dos casos); aos 12-18 anos a rinoplastia (cirurgia de refinamento), mediante avaliação com ortodontista e cirurgião bucomaxilofacial(4).

Pós-cirúrgica – momento em que ocorrem as revisões pós-procedimentos, além do acompanhamento subsequente quanto ao desenvolvimento e resultados esperados (3).

A alimentação é uma das grandes preocupações dos pais no cuidado à criança com fissuras labiopalatinas e demanda uma abordagem individualizada, por meio da análise de cada caso e o tipo de fissura apresentada, que está diretamente associado à capacidade de realização da pressão intraoral adequada (5)(6).  Pacientes com fissura de palato podem ter mais dificuldades para estabelecer tal pressão, do que aqueles com fissura do lábio. Todavia, de maneira geral, essa malformação congênita não implica incapacidades na deglutição e no reflexo de sucção, uma vez que não compromete as funções do Sistema Nervoso Central. Desse modo, sempre que possível, o aleitamento materno deve ser recomendado, devido aos inúmeros benefícios proporcionados à mãe e ao bebê(7). Além disso, o estado nutricional da criança é importantíssimo para que possam ser realizadas as correções cirúrgicas da anomalia (8). O nutricionista tem papel fundamental para evitar o atraso no crescimento, uma vez que orienta quais sejam as estratégias mais adequadas de alimentação no pré, trans, pós-operatório e no primeiro ano de vida do paciente com anomalia craniofacial.

Outro ponto a se considerar é a manutenção da saúde bucal destes pacientes, uma vez que o atendimento odontológico preventivo não difere daqueles sem fissuras (9). Cabe ao cirurgião-dentista orientar sobre o procedimento de higiene bucal que deve ser realizado e os devidos cuidados para prevenir a cárie, além de outras medidas preventivas e restauradoras nos indivíduos com fissura de lábio e/ou palato. É muito importante que a equipe de saúde bucal oriente quanto a correta escovação, o uso de fio dental e o bochecho com fluoreto de sódio. (10)

Por meio da Portaria SAS/MS nº. 62, de 19 de abril de 1994, o tratamento das pessoas com fissura labiopalatal é assegurado  no Sistema Único de Saúde (SUS), através do funcionamento dos Centros de tratamento da má formação lábio palatal. Esses Centros devem dispor de condições físicas, estruturais, de equipamentos e  recursos humanos para prestar o atendimento clinico, cirúrgico e de reabilitação adequados e com qualidade aos pacientes; dispondo de uma equipe multidisciplinar especializada, composta por médicos – pediatras, otorrinolaringologistas e cirurgiões plásticos, ortodontistas, fonoaudiólogos, psicólogos, geneticistas, radiologistas e protéticos, visando a uma reabilitação morfológica, funcional e psicossocial (11).

Frente a esse contexto, sabemos que a Atenção Primária à saúde é a porta principal e prioritária de entrada ao SUS, sendo relevante a ênfase ao cuidado centrado na pessoa, por meio de uma abordagem que esteja em consonância com a atuação da equipe multiprofissional, assegurando, dessa forma, a humanização no atendimento do paciente com fissura labiopalatina.

Reforça-se que esse atendimento deve ter um potencial considerável de resolutividade e uma operante interlocução entre os demais níveis de atenção, possibilitando uma abordagem assertiva e transdisciplinar.

REFERÊNCIAS

  1. Montagnoli, LC Crescimento de crianças portadoras de fissuras lábio-palatais, de 0 a 2 anos. Ribeirão Preto, 1992. Dissertação (Mestrado em Puericultura e Pediatria) – Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, USP. Disponível em: <https://repositorio.usp.br/item/000737459>.
  2. Morris H, Ozanne A. Phonetic, phonological and language skills of children with a cleft palate. Cleft Palate b Figura 7. a, b) Aspecto clínico após o tratamento cirúrgico restaurador e a palatoplastia. Craniofac J. 2003;40:460-70. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/328586043_Phonetic_Phonological_and_Language_Skills_of_Children_with_a_Cleft_Palate>.
  3. Lima, EP, Carvalho A S,  Menezes DMV; Almeida JRV;  Júnior AAG; AlmeidaA ortodontia na atenção multidisciplinar na saúde do paciente fissurado: uma revisão da literatura. Odontol. Clín.-Cient. (Online), 2015;14: 785-88.Disponível em: http://revodonto.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-38882015000400002>.
  4. Tuji, FM, Bragança TA, Rodrigues CF, Pinto DPS. Tratamento Multidisciplinar na Reabilitação de Pacientes Portadores de Fissuras de Lábio e/ou Palato em Hospital de Atendimento Público. Belém – PA, 200. Disponível em: <http://files.bvs.br/upload/S/0101-5907/2009/v23n2/a2013.pdf>.
  5. Hausmann, Aleitamento materno em pacientes portadores de fissuras labiopalatinas.Santa Cruz do Sul. Universidade de Santa Cruz do Sul,2017. Trabalho de Conclusão de Curso em odontologia.Disponível em: <https://repositorio.unisc.br/jspui/handle/11624/1850>.
  6. Redford-Badwal DA, Mabry K, Frassinelli JD. Impact of cleft lip and/or palate on nutritional health and oral-motor development. Dent Clin N Am 2003; 47:305-17.Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/10801810_Impact_of_cleft_lip_andor_palate_on_nutritional_health_and_oral-motor_development>
  7. Campillay, PL, Delgado, ES, Brescovici, SM. Avaliação da alimentação em crianças com fissura de lábio e/ou palato atendidas em um hospital de Porto Alegre. Revista CEFAC. 2010. Disponível em <https://www.scielo.br/j/rcefac/a/8JqP6k7GVtSN494Fpp8HNHk/abstract/?lang=pt>.
  8. Silveira, JLC , Weisse CM. Representações Sociais das Mães de Crianças Portadoras de Fissuras Labiopalatinas sobre Aleitamento. Revista Pesquisa Brasileira Odontopediatria e Clínica Integrada. 2008; 8: 215-221.Disponível em:<https://www.redalyc.org/pdf/637/63711746014.pdf>.
  9. Costa B. Odontopediatria na reabilitação de crianças com fissura labiopalatina. 44o Curso Anomalias Congênitas Labiopalatinas [Internet]. 2011.Disponível em:<https://hrac.usp.br/wp-content/uploads/2017/09/anais_49o_curso_de_anomalias_hrac_2016_ebook.pdf>.
  10. Gallbach, JR. Paciente com fissura labiopalatina: potencial de resolutividade do atendimento na Faculdade de Odontologia da UFMG. Belo Horizonte. Faculdade de Odontologia. Universidade Federal de Minas Gerais, 2004. Disponível em: <https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/ZMRO-7HMS5L/1/disserta__o_mestrado_juliana_rodrigues_gallbach.pdf>.
  11. Ministério da Saúde [Página da Internet] cirurgia plástica reparadora,fissura labiopalatal: Prevenção, Diagnóstico e Tratamento [Acesso em 3 de novembro de 2021]. Disponível em: <https://antigo.saude.gov.br/atencao-especializada-e-hospitalar/especialidades/cirurgia-plastica reparadora/fissura-labiopalatal/prevencao-diagnostico-e-tratamento>.

Colunista:

Eliane Barbosa de Souza – Enfermeira, graduada pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia. Residente Multiprofissional em saúde da Família pela FESF-SUS.

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